Há busca por formas perfeitas e harmônicas, do corpo, da face, e por que não dos dentes? Há vários anos, pouco se falava em estética corporal ou facial. Quem sabe o desejo maior era ter uma vida regrada, com um bom sustento financeiro e saúde? Saúde era apenas “ausência de doença ou enfermidade”. Mas esse conceito mudou há mais de sessenta e dois anos. Desde 1946, a Organização Mundial da Saúde define doença como a perturbação do “estado de completo bem-estar físico, mental e social do ser humano”. Se, há mais de seis décadas, esse “novo” conceito se estabeleceu, isso é sinal de que, pelo menos nos países do primeiro mundo, uma mudança muito grande no comportamento do ser humano estava ocorrendo.

Dentro desse conceito mais amplo de saúde, não basta o ser humano não ter doença, além disso ele precisa se sentir feliz e integrado socialmente. Na verdade, essa felicidade é mais uma conseqüência de um bem maior: a inclusão social. O que significa isso? Qualquer um de nós deseja se sentir incluído no seu meio social, direta ou indiretamente, seja pela participação em atividades sociais, seja pela chance de poder consumir um bem que se torna popular, ou algo mais simples ainda: sentir-se igual a todas as pessoas que estão ao redor. A inclusão social pode ir desde a chance de se alimentar diariamente, evoluindo para a chance de ter acesso à saúde básica, à educação, ao saneamento básico e ao transporte. Mas nos tempos modernos, com o avanço da tecnologia, e a massificação dela, outros recursos, outrora considerados exclusivos dos ricos, tornaram-se básicos como o uso de um simples batom, o acesso ao telefone celular ou à televisão digital. Na área da saúde, o acesso às tecnologias que permitem um diagnóstico mais precoce das doenças e a busca pelo corpo perfeito, com as cirurgias plásticas, têm evoluído para dar ao ser humano a chance de viver bem, viver feliz.

A odontologia não ficou atrás. A principal mudança veio nos meios de prevenção, amplamente difundidos para a população, desde a água de abastecimento fluoretada à escova e creme dentais, agora acessíveis à maioria. O acesso aos consultórios tem se tornado mais fácil, menos custoso, com a formação de mais profissionais e desenvolvimento de materiais dentários nacionais de boa qualidade. Hoje a indústria nacional de materiais odontológicos busca desenvolvimento, tecnologia, e já está presente no mundo inteiro, exportando o material e o equipamento “made in Brazil”, que tanto nos orgulha. Voltando à popularização da odontologia, a ortodontia, que pelo uso de aparelhos fixos ou móveis busca alinhar os dentes e ajustá-los para uma mordida perfeita, tornou-se uma especialidade mais popular há alguns anos. Hoje, nos grandes centros urbanos, é comum observarmos crianças e jovens adultos portando aparelhos dentários para correção de seus dentes. Mas a odontologia tem passado por uma revolução muito grande e rápida. Várias especialidades, como a implantodontia, a prótese e a dentística, têm experimentado uma evolução tecnológica grande, com uma rápida popularização. Hoje escutamos as pessoas falarem em clareamento dentário, algo que era acessível a poucos.

A odontologia aumentou o número de especialidades e se desenvolveu com o propósito de ter profissionais mais capacitados em diferentes assuntos, para divulgar o que a profissão tem de mais moderno para toda a população. Tratamentos que outrora eram considerados impossíveis de serem realizados pela grande maioria da população, hoje são oferecidos mesmo para as classes sociais menos favorecidas.

Atualmente, o trabalho sincronizado das várias especialidades da odontologia permite o desenvolvimento de tratamentos mais complexos, levando a um resultado final melhor, reabilitando o paciente, não só na sua mastigação, mas em um sentido muito mais amplo: socialmente. Exemplo desse tipo de tratamento integrado, que busca a harmonia estética do sorriso e a funcional, é o caso da paciente Tatiane. Por conta da formação de dois dentes a mais em sua arcada – dois dentes supranumerários, no lugar de seus dentes incisivos centrais superiores – a jovem de 20 anos de idade apresentava desarmonia profunda da sua mastigação e, principalmente, social. Com um trabalho integrado de diferentes especialidades na Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Odontologia (Fundecto) da Faculdade de Odontologia da USP, foi possível tornar realidade um tratamento que não era visualizado pela jovem, envolvendo as especialidades de cirurgia, periodontia, dentística, ortodontia, endodontia, e prótese. O sucesso foi alcançado pelo trabalho integrado.

Após aproximadamente dois anos, uma jovem que não conseguia um emprego melhor do que o de distribuir panfletos em semáforos, hoje trabalha distribuindo sorrisos em supermercados, promovendo diferentes produtos entre as gôndolas. Para nós profissionais, esta é a maior alegria de ser dentista: a alegria de saber que um dia pudemos, por meio da nossa profissão, mudar o rumo da vida de um semelhante, ao possibilitar a harmonia estética necessária para que ele se sinta igual aos seus.

Prof. Dr. Carlos FRANCCI

Graduado pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP). Mestre e Doutor em Materiais Dentários pela FOUSP. Foi professor visitante do Departamento de Dentística Operatória da University of North Carolina at Chapel Hill durante um ano. Atualmente é professor assistente do Departamento de Materiais Dentários da FOUSP e coordenador de cursos de Atualização em Dentística da FUNDECTO-USP, da EAP, da APCD Central e da EAP da ABO, em Pouso Alegre, Minas Gerais. Ministrou mais de 270 cursos. É autor de mais de 20 artigos científicos e 7 capítulos de livros.




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