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Resumo: A tecnificação da Odontologia e a busca incessante por habilidades “baseadas em evidências científicas” exercem um tal fetiche sobre os profissionais que acabam os alienando, dentre outras reflexões políticas, éticas, sociais e humanas, daquela que hoje reflete um dos maiores desafios da Odontologia: a inserção dos profissionais no mundo do trabalho e a (re)significação do perfil de profissional em face às mudanças estruturais do mundo do trabalho que, a partir do final da década de 80, começaram a ser percebidas no âmbito da Odontologia. Alheios a essas mudanças, a maioria dos cursos de Odontologia no Brasil continua formando profissionais com base no modelo hegemônico de formação – tecnicista e cientificista. Diante disso, faz-se necessário abrir espaços de discussões que nos ajudem a compreender essas mudanças, no sentido de enfrentar os desafios, não só da crise do trabalho, mas também da crise de identidade em que estão mergulhados muitos profissionais, ao perceberem o distanciamento entre a formação recebida e as exigências do mundo do trabalho. Desse modo, enfatizaremos, nesse ensaio, as perspectivas atuais do trabalho odontológico, o perfil de profissional cobrado pelo mundo do trabalho e o papel das instituições formadoras na (re)definição desse perfil.
Introdução
Para enfrentar as inúmeras mudanças conjunturais do país e aquelas relacionadas mais especificamente com o campo de trabalho odontológico e os avanços científicos da profissão, as instituições formadoras de recursos humanos em Odontologia se defrontam, atualmente, com o grande desafio de repensar o modelo hegemônico de formar cirurgiões-dentistas. Este ainda privilegia o perfil de artesão habilidoso, voltado para uma prática em nível individual e privado, centrado nos avanços tecnológicos e na supervalorização das especialidades, sendo, contraditoriamente, segundo Perri de Carvalho (2001b), alheio às dimensões: ética, humana, social, epidemiológica, política, econômica e cultural.
Tais dimensões são cada vez mais cobradas dos profissionais tendo em vista a crise que o mercado de trabalho odontológico experimenta nos últimos anos, obrigado-os não só a mobilizar mecanismos concorrências para um mercado altamente competitivo, como também a submeterem-se, cada vez mais, a um processo de assalariamento. Dessa maneira, os dentistas se vêem desafiados a buscar um portifólio de competências que os ajude a dar respostas às exigências de empregabilidade e à complexidade da conjuntura atual que rege o mundo do trabalho.
Esse olhar emerge não só de uma compreensão prática (vivencial) da realidade que envolve a formação e o trabalho em odontologia , mas também de uma leitura atenta de relatórios multinacionais (Relatório Jacques Delores – UNESCO, Carta da Transdisciplinaridade), da literatura científica e de documentos oficiais (Diretrizes Curriculares Nacionais , Diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal) que propõem uma nova leitura da educação e do trabalho. É assim que o Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI assegura que:
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| Para enfrentar os desafios deste século, novos objetivos da educação são assinalados, no sentido de ampliar a idéia de educação, tendo como pano de fundo não apenas o seu referencial utilitário, mas criando uma nova concepção de educação na qual todos possam ser capazes de descobrir, reanimar e fortalecer o seu potencial criativo – revelar o tesouro escondido em cada um de nós (...) Isto supõe que se ultrapasse a visão puramente instrumental da educação, considerada como a via obrigatória para obter resultados (saber fazer, aquisição de capacidades diversas, fins de ordem econômica), e se passe a considerá-la em toda a sua plenitude: realização da pessoa que, na sua totalidade, aprende a ser (Delores, 2001, p.90). |
Ao redefinir a noção de qualificação, ampliando-a para a noção de competência, esse mesmo relatório (p. 94) afirma que os empregadores exigem, cada vez mais, além da formação técnica e profissional, o comportamento social, a capacidade de iniciativa, o gosto pelo risco, a capacidade de comunicar-se, a aptidão para o trabalho em equipe e a capacidade de gerir e resolver conflitos. De acordo com o relatório, essas competências são cada vez mais importantes e esta tendência tende a tornar-se mais forte, devido ao desenvolvimento do setor de serviços.
Não é mera coincidência, portanto, que o perfil de profissional proposto nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) dos cursos de Odontologia (CNE/CES, Resolução no 3 /2002) esteja em sintonia com essas percepções globalizadas de formação profissional, ou seja: compromisso com os interesses coletivos; formação de consciência crítica; capacidade de responder às condições de saúde da sociedade; adaptado a dar respostas à realidade epidemiológica e social, sem perder a excelência técnica; ênfase preventiva e visão comunitária; formação generalista, sólida formação humanista; sensibilidade social; capacidade de trabalhar em equipe; e preocupação com os aspectos éticos.
Com essa perspectiva, as instituições formadoras em Odontologia, a despeito das suas resistências às mudanças, têm sido cada vez mais cobradas no sentido de (re)significarem a hegemonia da tecnociência na formação profissional, uma vez que, segundo Pinto (2000), é o mercado de trabalho que por vezes força a universidade mais tradicional a preparar recursos humanos para as suas necessidades.
Tendo em vista uma reflexão da formação do cirurgião-dentista em face aos desafios contemporâneos do mundo do trabalho, buscaremos, nesse ensaio, discutir as novas tendências de formação profissional flexível e multicompetente para atender às exigências de um mundo do trabalho em crise.
O mundo do trabalho em crise
Schaff (1995) afirma que o final do século XVIII e início do século XIX foram palco de grandes transformações tecnológicas que culminaram na primeira Revolução Industrial, com conseqüente substituição da força física do homem pela energia das máquinas, gerando um maior rendimento do trabalho humano e conseqüente aumento nos níveis de desemprego. Já no século XX, segundo o autor, anunciou-se a segunda Revolução Técnico-Industrial, marcada, sobretudo, pelo desenvolvimento da informática, da microeletrônica e da biotecnologia. Esta, se por um lado, traz inúmeros avanços, por outro, coloca uma série de problemas sociais dos quais o autor assinala como o mais importante o desemprego estrutural .
Ao analisar os avanços tecnológicos e suas implicações sobre as pessoas e o trabalho, Tulku (1994, p. 232) afirma que as transformações que assolam o mundo têm causado um impacto na nossa forma de trabalhar, afetando todas as esferas de atuação humana. Assim, à medida que a tecnologia foi se tornando mais sofisticada, a maioria da população ficou direcionada para um trabalho que tem possibilitado poucos desafios intrínsecos. Um modo de trabalhar prescritivo e automatizado.
Em contraposição a essa referência unidimensional do trabalhador, altamente valorizada no Capitalismo do século XX e com profundas raízes que ainda tentam dar sustentação a esse modelo, emerge, hoje, uma outra visão de trabalhador: flexível e multicompetente, que detenha os conhecimentos técnicos e incorpore outras qualificações, tais como descreve De Luiz (1996): um profissional crítico, flexível, autônomo, criativo, com capacidade maior de abstração, dinâmico, comunicativo, aberto às mudanças e consciente da qualidade e das implicações éticas do seu trabalho.
Nesse sentido, de acordo com Batista (2003, p.1), o final do século XX foi palco de profundas mudanças para o modo de produção, de maneira que, com o objetivo de responder à crise de valorização, rentabilidade e expansão do Capitalismo, houve uma reestruturação do processo produtivo, estimulando formas de produção mais flexíveis, com base na inovação tecnológica e em novas formas de gestão da produção e do trabalho. Isso tem implicado alterações no perfil da qualificação da força de trabalho.
Assim, tendo como referência o toyotismo , a reestruturação produtiva tem exigido uma qualificação profissional baseada no modelo das competências e da ideologia da empregablidade. O modelo de competências é a forma de organização do trabalho flexível, que não permite mais que o trabalhador seja qualificado de forma adestrada para o cumprimento de tarefas prescritas, de modo que a noção de competência é inseparável da ação e os conhecimentos teóricos e/ou técnicos são utilizados de acordo com a capacidade de executar as decisões que a ação exige (Batista, 2003, p.159).
Se nos basearmos, em princípio, às nossas concepções do trabalho tradicional do dentista (liberal e individual) essa discussão parece nada ter a ver com a nossa profissão. Entretanto, se lançarmos um olhar sobre o campo do trabalho odontológico hoje, sobretudo na esfera pública, veremos que ele está cada vez mais inundado por essas concepções, como veremos a seguir.
Como se situa o campo do trabalho odontológico?
A partir do final da década de 70, o trabalho odontológico autônomo já dava sinais de falência, como explicita o trabalho de Paixão (1979, p.80), que analisou a atuação profissional de 584 dentistas formados pela Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (FOUFMG). Os resultados revelaram a existência de três formas básicas de participação do dentista no mercado de trabalho: o regime liberal , vivenciado por 35,2% dos profissionais; o regime salarial , experimentado por 6,12%; e o regime combinado , abrangendo 58,68% deles. Analisando a percepção que os profissionais tinham do seu processo de trabalho, a autora observou que, embora 96.82% deles tivessem se declarado como profissionais liberais, eles percebiam as características do trabalho sob o capital e sentiam que a sua força de trabalho era apropriada por terceiros que, inclusive, impunham-lhes um tipo de prática contrária a seus princípios. Assim, embora eles percebessem a existência de uma nova prática social, expressavam um sentimento de rejeição às condições que lhes eram impostas e demonstravam ainda não ter uma consciência plena da situação, como situação estrutural. Eles percebiam o assalariamento, mas queriam ser liberais.
Tanto pela redução do poder de compra da população como pela perda da assistência odontológica garantida pelas empresas, o fato é que o desemprego estrutural tem agravado a crise no mercado odontológico. Esta, de acordo com Grec (2001), tem como causas básicas: (1) a crise financeira mundial, com repercussão no Brasil; (2) a crise financeira interna; (3) a desnacionalização da economia brasileira; (4) o aumento nos custos da formação profissional e no investimento da infra-estrutura de atendimento (montagem e manutenção do consultório, material de consumo, impostos, encargos com funcionários...); (5) o aumento do número de cursos de Odontologia no país; (6) a redução da relação profissional/habitante; (7) a má distribuição dos profissionais; e (8) a má distribuição de renda no país.
A Odontologia brasileira chega ao século XXI com uma superpopulação de dentistas e um elevado número de faculdades, muitas das quais não oferecem um ensino de qualidade. Com base nos dados de Rosenthal e Albuquerque (2004) e aqueles fornecidos pela ABENO (2004), observamos um aumento de 64 novos cursos (de 118 para 182) em apenas cinco anos (1999 a 2004). Quanto à relação dentista/habitante, observamos uma queda vertiginosa nos últimos anos: em 1975, esta era de 1/2.827 (Chaves, 1986, p.167) e em fevereiro de 2005 era de 1/950 (IBGE/CFO, 2005). Existe, além disso, uma má distribuição desses profissionais quando considerada as diferentes regiões e estados., de modo que no Distrito Federal, por exemplo, essa relação era de 1/537, em 1999, enquanto no Maranhão era de 1/5.082.
É claro que, a despeito da relevância dessas informações, não podemos ter a noção simplista de analisar o problema da distribuição profissional tendo como base a relação dentista/habitante, per si. Existem outros fatores que estão envolvidos na adequação dessa relação, entre os quais podemos citar: a renda per capita da população, a distribuição de renda e o nível educacional e cultural da população, que influencia na percepção que ela tem para a necessidade de demandar serviços odontológicos.
Como conseqüência dessa crise, o que se observa, hoje, no campo do trabalho odontológico está muito próximo de uma situação de pletora profissional, que Chaves (1988) caracteriza de acordo com as seguintes condições: redução dos preços dos serviços odontológicos, diminuição da renda média dos dentistas, desestímulo ao ingresso de novos membros na profissão, êxodo profissional, mão de obra profissional subutilizada, exercício da profissão associado a outras atividades, interesse por sistemas de pagamento por terceiros, e pressão das entidades de classe sobre os serviços públicos e sociais para a criação de cargos de dentista.
De fato, se nos reportarmos às recomendações da 3ª Conferência Nacional de Saúde Bucal (CNSB, 2004), veremos que existe um forte propósito de ampliação do campo de trabalho para a Odontologia, tais como: ampliação das equipes de saúde bucal no Programa de saúde da família; criação do atendimento de urgência em todos os hospitais públicos ou filantrópicos; inserção de dentistas nos hospitais, para atendimento de pacientes acamados e internados, serviços de cirurgia, traumatologia e estomatologia.; e criação de cargos para dentistas especialistas em Odontologia do Trabalho nos centros de referência do SUS.
Nesse sentido, o trabalho de Silva e Rosa (1996), realizado no município de Araraquara, mostrou que, em quatro anos (1988 a 1992), houve um incremento de 81% de dentistas contratados pelo setor público e que, dos dentistas que tinham vínculo empregatício (setor público ou privado), 33,8% se dedicam apenas ao emprego.
Costa e outros. (1999) confirmam essa perspectiva, ao avaliar os motivos que levaram os alunos de da Faculdade de Odontologia de Araçatuba da Universidade Estadual de São Paulo a escolher a profissão e as suas expectativas de exercício profissional. Os autores registraram que 43% do grupo declararam que queriam ser assalariados do serviço público e 14,5% assalariados de outro dentista. Em resumo, quase 60% deles já compreendem que o exercício liberal está em declínio. E, ao serem perguntados sobre as dificuldades que eles imaginam encontrar no exercício da profissão, as duas razões mais freqüentes foram: saturação do mercado de trabalho e condição financeira da população. Outras razões também apontadas foram falta de informação e valorização da saúde bucal por parte da população, um mercado de trabalho fechado e difícil, desemprego e subemprego.
Zanetti (2004b) confirma esses temores ao denunciar que o mercado de serviços curativos de massa vem passando por um processo de mudanças estruturais profundas e esgotando-se na forma em que foi originalmente concebido, com base no exercício clínico liberal. Assim, o autor compreende que tem havido um aumento da exploração da força de trabalho dos cirurgiões dentistas e que a categoria vem se proletarizando, numa sucessão de conjunturas recentes, compostas de instabilidades, mudanças e indefinições. Desse modo, com um mercado de trabalho extremamente competitivo, tem-se criado um processo amplo de busca e experimentação de diferentes mecanismos concorrenciais, que se expressa por novas formas de organização do processo de trabalho e por novas habilidades, como: o acesso a cursos de pós-graduação, o trabalho em equipe (clínicas com profissionais de diferentes especialidades), o estabelecimento de convênios e credenciamentos, a opção por clínicas populares, as práticas de marketing para captação e fidelização da clientela, maior ênfase à estética, e a busca de posturas relacionais qualificadas, tais como: ética (Ex: maior respeito à autonomia dos clientes); comunicativa; de abertura e incorporação das tecnologias pedagógicas e/ou psicológicas; de cuidado integral do indivíduo; de uso mais rigoroso das rotinas de biossegurança; e de negociação comercial da prestação do serviço com formas mais adequadas ao contexto de queda de poder de compra da população.
No que se refere ao estímulo à pós-graduação, a Odontologia, como, de resto, todas as outras profissões, tem importado, do discurso dos reformadores da Educação, a noção de empregabilidade , estimulando a educação continuada (cursos de aperfeiçoamento, especialização, mestrados profissionais e acadêmicos, doutorados).
Nesse contexto, seja pela necessidade de aquisição de novas habilidades – tanto para a esfera pública como para a esfera privada – seja pelo desenvolvimento científico-tecnológico que gera a necessidade de divisão técnica do trabalho, um número cada vez maior de profissionais, destacadamente os mais jovens, busca o acesso a cursos de pós-graduação. Para termos uma noção dessa mudança, tomamos como referência alguns trabalhos: Paixão (1979) registrou que apenas 4% dos profissionais de Belo Horizonte (n =198), formados entre 1972 e 1977, tinham curso de especialização. Lucas (1995), com uma amostra de 83 egressos da PUCMG e UFMG (1982 a 1985), considerou que apenas uma minoria (em torno de 23%) possuía pós-graduação (predominante especialização), sendo as áreas mais procuradas: odontopediatria, prótese, endodontia, ortopedia funcional dos maxilares e saúde pública. Já Silva e Rosa, em 1996, registraram uma proporção de 48,5% de profissionais em Araraquara com título de especialista. Confirmando essa tendência, Costa e outros (1999) também registraram que 47% dos alunos pesquisados na FOUNESP revelaram o desejo de cursar uma pós-graduação.
Penso que um dos maiores problemas dessa busca pela pós-graduação é que se cria a falsa expectativa de que as portas do mundo do trabalho se abrirão magicamente, na medida em que ampliamos o nosso portifólio de competências. Obviamente que em parte isso é verdade, mas, por outro lado, gera uma expectativa perversa, na medida em que passa a idéia de que uma pós-graduação garantirá o sucesso profissional e o retorno financeiro, quando, na verdade, a redução do acesso das pessoas aos serviços odontológicos perpassa por razões muito mais complexas (mudanças estruturais, fatores sociais, econômicos e culturais) do que apenas pela competência técnica dos profissionais.
A própria trajetória da profissão mostra que existe uma contradição nesse discurso de empregabilidade: Lucas (1995), ao refletir sobre isso, afirma que, entre os anos 50 e 70 a profissão era destituída de um grande conhecimento científico sistematizado; por outro lado, era mais rentável do ponto de vista financeiro. Hoje, se observa o seu reconhecimento do ponto de vista técnico-científico, mas isso, de fato, não impede o avanço no processo de assalariamento e de formas servis de trabalho aos quais a profissão está exposta.
Nesse sentido, Guerreiro (2003) afirma que a globalização acaba por impor à educação a tarefa de qualificar e requalificar a mão-de-obra com o discurso pedagógico da competitividade e das múltiplas habilidades e competências. Entretanto estamos já há mais de uma década vivendo uma crise endêmica de desemprego, que é estrutural.
Não pretendemos, com essa reflexão menosprezar a importância das pós-graduações e, menos ainda, a necessidade que os profissionais têm de acompanhar a evolução técnico-científica da profissão, mas é preciso, também, estimular o olhar crítico e histórico sobre o mundo do trabalho, no sentido de evitar as frustrações decorrentes de falsas expectativas inculcadas pelos reformadores e empresários da educação. Já se faz longe os tempos em que bastava ter um diploma de nível superior para se garantir um trabalho digno e rentável. Esse processo histórico já se anuncia também com os diplomas de pós-graduação.
Um outro nó crítico a se desatar são as cobranças que se faz à profissão, de forma cada vez mais contundente, no sentido do que Zanetti chama de “posturas relacionais qualificadas”. Sejam elas cobradas pelas políticas públicas de educação e de saúde, ou pelos mecanismos concorrenciais, inerentes a um mercado de trabalho altamente competitivo, ou, ainda, pela evolução do conhecimento científico acerca do processo saúde-doença, fato é que, no mundo do trabalho contemporâneo, cabe, cada vez menos, um perfil de profissional que abarque apenas as habilidades técnicas inerentes à profissão.
Nessa perspectiva, as DCNs, bem como as Diretrizes Nacionais de Saúde Bucal, têm dado ênfase aos referenciais éticos e humanos (capacidade de trabalhar em equipe, humanização da atenção, responsabilidade social...) que envolvem a formação e o exercício profissional.
Segundo Pucca (2004), o grande empregador na Odontologia, hoje, é o SUS. Desse modo, ele avalia que o atual programa de saúde bucal do governo (Brasil Sorridente) não vai beneficiar apenas os usuários, mas também os profissionais da área odontológica, visto que eles passam a integrar as equipes de saúde bucal em todo o país, configurando-se em uma estratégia de ampliação do campo de trabalho para esses profissionais. Desse modo, as instituições formadoras não podem ficar alheias a esse processo, continuando a formar profissionais voltados para uma prática liberal e individual.
Contradizendo esse modelo de formação, as políticas públicas de saúde, tendo em vista a construção da atenção à saúde bucal no SUS, tem cobrado, de forma crescente, que os cirurgiões dentistas detenham habilidades políticas voltadas para o planejamento, programação, gestão e gerência. Essas habilidades, por sua vez, implicam a qualificação para o trabalho intelectual de concepção criativa, além dos referenciais técnicos inerentes à profissão (Zanetti, 2004a). Além disso, essas políticas têm apresentado algum esforço de nortear as ações de saúde no âmbito do SUS, tendo a humanização da atenção como uma das suas principais diretrizes e nos últimos anos, o MS vem desenvolvendo vários projetos ou programas nesse campo, de modo que, em fevereiro de 2003, definiu-se pela construção da política nacional de humanização da atenção no âmbito do SUS (PNH – HumanizaSUS).
Ao referir-se ao modelo de assistência e aos processos de trabalho propostos pelo SUS, Santos (2001) admite que:
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| As expectativas de retomada, pelo médico e demais profissionais de saúde, da satisfação com o trabalho, com todas as decorrências positivas da realização profissional e pessoal – reconhecimento cultural e afetivo, pelos cidadãos e pela comunidade, do trabalho solidário e acolhedor (...) encontram-se vinculados à transição do velho modelo assistencial, desumano, mercadológico, iatrogênico e doloso, para o novo modelo, humanizado, solidário, acolhedor e resolutivo (...) Se (...) os médicos e outros profissionais de saúde assumirem ativamente a postura de identificar-se com a formação ético-humanista do novo modelo assistencial, e, ao mesmo tempo, reconhecerem que não são objetos, mas sujeitos da dura transição de um modelo para o outro, estarão contribuindo decisivamente (...) para a construção de uma sociedade solidária e justa (Santos, 2001, 83). |
Em se tratando do mercado de trabalho, o nível de exigência frente à situação de crise tem exigido dos dentistas uma maior profissionalização para lidar com a administração dos próprios consultórios ou clínicas. Nesse sentido, podemos destacar: o aumento da burocratização dos consultórios (Grec, 2001, p. 277); a necessidade de um trabalho de marketing para captação e fidelização da clientela (Zanetti, 2004b); a melhoria da apresentação dos consultórios; a capacidade de gerenciamento de recursos humanos, voltados para um trabalho em equipe; a aquisição de conhecimentos básicos de economia para um controle dos custos de manutenção, em virtude da redução da remuneração pelos serviços prestados; e a aquisição de conhecimentos jurídicos que lhes propiciem estabelecer, em seu cotidiano, medidas de proteção contra os processos jurídicos, cada vez mais freqüentes no Brasil.
Destaca-se, também, no mercado atual de prestação de serviços em saúde, um maior grau de exigência por parte da clientela no sentido do estabelecimento de relações interpessoais com base nos princípios da ética (respeito à autonomia, beneficiência e não-maleficiência) e da humanização (acolhimento, vínculo, atenção aos aspectos psicológicos/emocionais que emergem no atendimento...). Nesse sentido, cobra-se, hoje, dos profissionais mais conhecimentos na área de ciências humanas e, mais que isso, cobra-se a expressão cotidiana de posturas relacionais qualificadas.
Deste modo, Zanetti (2004a) aponta que a Odontologia está vivendo uma conjuntura que reúne desafios de várias ordens. Legados de um passado artesanal, liberal, homogeneizante e unimendisionalizante que se defrontam com uma perspectiva de futuro complexa, heterogênea, multicêntrica e indeterminada.
Os desafios, como vemos, são de diversas ordens, e estes, em diferentes níveis, pressionam as instituições formadoras por mudanças que dêem conta de acompanhar a complexidade da conjuntura atual do mundo do trabalho.
O papel das instituições escolares na formação profissional
Silva Júnior e Ferretti (2004, p. 64) compreendem que é a partir da função social e em razão dela que é montada toda a estrutura organizacional da escola. Segundo os autores, essa estrutura vem sendo cada vez mais posta em tensão pelas mudanças nos contextos sociais e de produção do conhecimento, bem como pelas alterações que são solicitadas à instituição escolar em vista de tais mudanças.
A despeito disso, a formação profissional, para Lucas (1995), parece bastante distanciada da realidade de saúde bucal da população brasileira. Ensina-se como se o nobre da Odontologia fossem os tratamentos complexos e não o controle do processo saúde-doença, predominando, na formação acadêmica, uma visão burguesa que defende o uso de técnicas e materiais cada vez mais sofisticados. Ensina-se de forma alienada e alimenta-se a ilusão, entre os alunos, de que estes irão ter uma prática profissional que lhes trará status social e financeiro, a partir da visão que estes têm dos seus professores, em sua maioria, clínicos bem sucedidos, com grande clientela e prestígio.
Analisando também a formação profissional do cirurgião-dentista, Figueiredo (2002) confirma essa reflexão de Lucas, advertindo que:
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| As faculdades de odontologia são formadas, em sua maioria, por professores provenientes das
classes de elite, com visões de mundo bastante semelhantes às dos alunos, e que, por serem bem sucedidos no consultório particular, passam a ser símbolos de sucesso e prosperidade. A maioria não possui capacitação didática, a não ser aquela acumulada pelo tempo. Não realizam cursos preparatórios para que sejam supridas as necessidades de um educador. Em sua maioria não revelam preocupações pedagógicas ou políticas (...) A educação nos cursos de odontologia continua com a ilusão de uma neutralidade, quando, na verdade, é reprodutora da ideologia dominante. É todo um sistema de valores, idéias e prescrições não explicitadas formalmente, que penetram educandos e educadores. Há uma concordância entre eles de que nada tem a ver com esta situação social e de saúde da população do país. Como as divergências são raras, o modelo é sustentado (Figueiredo, 2002, p. 42). |
Segundo Perri de Carvalho (2001), os resultados das primeiras avaliações das condições de oferta dos cursos de Odontologia promovidas pelo MEC revelaram que: ao longo dos últimos anos, os cursos não foram muito alterados, embora algumas faculdades tenham elaborado currículos diferenciados; o discurso preventivo convive com uma prática controversa, desde um certo elitismo no currículo e na formação, até a falta de soluções objetivas para o recém- formado que vai atuar em centros menos sofisticados. Em geral, nota-se um “currículo oculto” que, contrariando a realidade e as tendências do mercado de trabalho, insiste apenas na imagem e na preparação do futuro cirurgião-dentista, como profissional liberal; e o modelo de ensino odontológico dá ênfase às especialidades que requerem alta tecnologia para a sua execução. Em algumas instituições, inclusive, a falta de distinção de limites de conteúdos entre o que é necessário para o exercício da Odontologia como clínico geral e como especialista, gera uma saturação da grade curricular, com autênticos inchaços nos programas e nos créditos das disciplinas.
Nesse sentido, Guerreiro (2003) avalia que a modernidade e o paradigma newtoniano-cartesiano geraram uma excessiva fragmentação e especialização que nos distancia de nós mesmos e do outro. Estimula a reprodução de uma educação competitiva e técnica, para atender ao mercado. O professor tornou-se impotente diante do mistério humano, tornou-se cientista e especialista do discurso, verdadeiros técnicos da informação. A prática pedagógica tornou-se científica e perdeu o sentido da arte do diálogo, do encontro e da partilha.
Para ajudar nessa reflexão, Morin (2003) nos lembra que a primeira finalidade do ensino foi formulada por Monthine: “mais vale uma cabeça bem feita que uma cabeça bem cheia”. Compreende, a partir dessa afirmação, que uma cabeça bem-feita significa uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas e dispor de princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido. É organizar os conhecimentos e, com isso, evitar sua acumulação estéril. Enquanto uma cabeça bem-cheia significa o saber acumulado, no qual não existe seleção e organização que lhe dê sentido.
Assim, diante de um referencial de educação centrado na transmissão de conteúdos e dos avanços técnico-científicos da Odontologia, a quase totalidade do tempo escolar é destinado à transmissão de conteúdos e ao aprendizado e treinamento de técnicas. Não há tempo para refletir criticamente sequer as técnicas que reproduzimos, muitas vezes de forma alienada. Nesse contexto, prevalece uma lógica utilitarista e racional, a qual os alunos têm uma enorme dificuldade de ultrapassar. Em geral, o comportamento da maioria deles, desde os primeiros semestres dos cursos, é apresentar uma resistência a todo tipo de proposta pedagógica que vincule uma discussão mais conceitual, que mobilize deles a capacidade de abstrair, discutir, criticar e apreender conceitos que eles avaliam não serem úteis para a sua prática clinica. O questionamento que aparece cotidianamente é: eu vou usar esse conhecimento para quê? Nesse pacote de conhecimentos utilitários, todos aqueles que não forem capazes de serem mobilizados, revertendo-se em procedimentos, são marginalizados e descartados.
Numa perspectiva contra-hegemônica, em face à crise de sentido que emerge, hoje, nos espaços escolares, Guerreiro (2003) propõe um perfil de educador que cuide, não só da formação intelectual e técnica, mas que, também, acolha a complexidade do ser humano. Um educador que possa trabalhar junto aos alunos o autoconhecimento, a autonomia e a cidadania, no sentido de facilitar a aquisição da inteligência subjetiva: emocional, onírica, atitudinal e relacional.
Para Lucas (1995), a escola deve trabalhar com o desenvolvimento do pensamento crítico em todas as suas vertentes, partindo do conjunto de valores que o aluno já traz consigo. Em seu trabalho de dissertação, ela observou que os alunos que já têm uma maior participação nos movimentos sociais e uma visão mais crítica em relação à estrutura social, podem encontrar na universidade ressonância para as suas aspirações e objetivos. A escola pode contribuir para um posicionamento mais definido do aluno frente ao mundo; pode, ainda, potencializar determinadas posturas ou definições político-profissionais, à medida que, ao implementar determinado projeto pedagógico, cria um clima favorável ao desenvolvimento de certos interesses, valores e compromissos.
Nesse sentido, mesmo que alguns alunos já tragam em sua “bagagem” alguns referenciais, hoje, cobrados para um perfil de profissional contemporâneo, se os cursos de Odontologia, ainda centrados na formação tradicional, não os valorizam, eles tendem a considerá-los como referenciais pessoais que nada têm a ver com a sua qualificação profissional. É como afirma Pessotti (1996): o jovem, quando escolhe uma carreira, tem uma motivação pessoal, ele carrega valores construídos, muito antes de ingressarem ao curso, que vão se agregando à sua carreira à medida que entra em contato com novas teorias, com as experiências clínicas, com os exemplos dos mestres, de maneira que cada aluno verá seus valores confirmados, negados ou alterados.
Para Silva Júnior e Ferretti (2004), é na escola que se condensa a materialidade do processo educativo e apesar desta constituir-se com base em um ordenamento jurídico, constitui-se, principalmente, pelos sujeitos que nela atuam. Assim, apesar da pretensão do Estado de interferir na organização escolar, por meio de diretrizes, avaliações e reformas educacionais, ele se esbarra em diferentes formas de resistências, conscientes ou não.
Do mesmo modo, quando o Estado propõe novos modelos de formação para uma atenção no âmbito do SUS, com base no acolhimento, no cuidado, na responsabilidade social, na ética e no vínculo, isso, de certa forma, acende os desejos de mudança daqueles que valorizam essas dimensões na formação profissional. Entretanto, com base nas reflexões de Silva Júnior e Ferretti (2004, p. 145), são evidentes as dificuldades para a sua concretização: se, por um lado, elas representam um discurso sedutor, por outro, a universalização do Capitalismo que demanda as reformas educacionais reflete uma contradição: no contexto capitalista – que reforça o desenvolvimento econômico global –, o processo de socialização do indivíduo é contrário ao desenvolvimento social da condição humana voltada para o gênero humano. Prevalece, quase sempre, o frenesi da vida moderna, voltado para a luta pela subsistência, a competitividade e o individualismo.
A despeito dessas contradições, é preciso viver a utopia de colaborarmos com a formação de seres humanos cada vez melhores, e não apenas prepararmos técnicos competentes para o mundo trabalho. É preciso, ainda, refletir com os alunos que o trabalho não se traduz apenas como meio de subsistência, mas também como sentido de vida. Ele se traduz, também, como meio de satisfação e felicidade. Em vista disso, pensemos em um perfil de profissional que não apenas busque uma adequação às leis de um mercado de trabalho exigente e competitivo, mas que, integrando o homem que trabalha, coexista o ser humano que demanda uma diversidade de outros saberes e outras vivências para sentir-se integrado consigo, com o outro, com a sociedade e com o ambiente que o abriga.
Considerações finais
Ainda que a esfera pública e o mercado de trabalho estejam cobrando um novo perfil profissional; ainda que os currículos estejam mudando; e ainda que os desejos de alguns atores desses espaços sociais estejam começando a ganhar voz, a formação profissional, na contramão do mundo do trabalho, resiste às mudanças necessárias, perpetuando as características tradicionais da formação, tais como: privilégio do perfil de artesão habilidoso; estar voltada para uma prática em nível individual e privado; valorizar a memorização de conteúdos, estar centrada na figura do professor; privilegiar a especialização e a tecnologia de ponta; e, de forma sutil, explicitar o caráter marginal das disciplinas ou conteúdos das áreas humanas e sociais.
A despeito das cobranças atuais e de pequenos avanços observados, é muito comum presenciar, nos ambientes acadêmicos da área de saúde – com seus referenciais altamente objetivos, – essa marginalização de todo conhecimento que envolve a subjetividade e o humano. Não podemos esquecer que um dos maiores pensadores do humano no século XX, Carl Jung, foi desqualificado como místico e não científico nos ambientes acadêmicos. É imperativo, portanto, frente a essas resistências, continuarmos lutando pela inclusão transversal desses saberes em todos os cursos da área de saúde.
Ao explicitar essas resistências, não existe a intenção de culpabilizar os atores sociais das instituições formadoras. As mudanças cobradas são, relativamente, recentes e estas exigem de cada sujeito que vive o cotidiano escolar (diretores/coordenadores, professores e alunos) uma apropriação dos novos referenciais que norteiam a formação de um perfil profissional em sintonia com as novas exigências da sociedade. Isso demanda tempo, pois, além de exigir conhecimentos que extrapolam o saber técnico, exige uma (re) significação de valores historicamente construídos pela classe odontológica.
E ainda que reconheçamos que as instituições formadoras devam implementar esforços para responder favoravelmente aos desafios que lhes são postos, concordamos com Lucas (1995) quando esta afirma que a escola é uma instituição importante, mas não a única responsável pela formação profissional. Segundo essa autora, os valores adquiridos na família, bem como as imposições do mercado, que ditam as formas de organização do trabalho e a própria vivência dos profissionais no exercício de suas atividades, são referenciais complexos da formação profissional. Sendo assim, para se falar em formação, deve-se envolver a família, a escola e o trabalho e, por isso, não se pode atribuir à universidade tantas expectativas, como tem ocorrido atualmente.
A despeito disso, acreditamos que o maior desafio das universidades, hoje, é conquistar o que, há anos, ela tem banido dos espaços acadêmicos, em prol de uma tecnociência ideologicamente livre de incertezas, ou seja, produzir um ensino crítico e criativo que também valorize a subjetividade, a sensibilidade, a generosidade, a afetividade, o sentido de grupo, a responsabilidade social, a ética, o humanismo e a percepção de homem como um ser biopsicossocial.
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