|
|
Alex Nogueira Haas - Mestre e doutorando em Odontologia pela UFRGS. Professor Assistente de Clínica Odontológica da Faculdade de Odontologia da UFRGS.
Adriela Azevedo Souza Mariath - Mestre e doutoranda em Odontologia pela UFRGS. Professora do Curso de Urgência em Odontopediatria da UFRGS.
Rui Vicente Oppermann - Doutor em Odontologia pela Universidade de Oslo-Noruega. Professor titular de periodontia da UFRGS
Pantelis Varvaki Rados - Doutor em Odontologia pela USP - Baurú. Professor da disciplina de Patologia da UFRGS e PUCRS.
|
INTRODUÇÃO:
As neoplasias são uma das maiores causas de morte no mundo todo. Elas estão entre as três principais responsáveis por óbitos no Brasil, um dos países com as maiores incidências de câncer. O câncer bucal é um dos tipos de câncer mais prevalentes, sendo em muitos países um problema de saúde pública. Em nosso país, o câncer bucal está entre as dez neoplasias mais freqüentes.
Não faltam evidências de que a cárie dentária e as doenças periodontais são as doenças bucais mais prevalentes nas populações do mundo todo. Entretanto, a possibilidade do câncer bucal deve ser considerada pelos cirurgiões-dentistas durante os exames clínicos de rotina de tal forma que se previna a instalação da doença e diagnostique casos em seus estágios iniciais facilitando assim o tratamento.
A cavidade bucal abriga uma diversidade muito grande de tecidos. Nesse sentido, diversos tipos de neoplasia podem estar presentes, de acordo com o tecido afetado. Apesar disso, o carcinoma espinocelular é a forma mais prevalente de neoplasia maligna na cavidade bucal, representando cerca de 95% dos casos. Além disso, seu desenvolvimento está relacionado a fatores de risco bastante conhecidos, podendo por isso ser proposta sua prevenção ou, pelo menos, a redução dos danos provocados pelo seu aparecimento através do diagnóstico precoce. Esta abordagem se encaixa perfeitamente na filosofia destes Professional Report. Dentro deste contexto, em alguns momentos o leitor encontrará a expressão câncer bucal utilizada como sinônimo de carcinoma espinocelular.
FATORES DE RISCO PARA O CÂNCER BUCAL
Os fatores de risco são fatores ambientais, comportamentais ou biológicos, que quando presentes aumentam a probabilidade da ocorrência de uma doença e, se ausentes, reduzem esta probabilidade. Os fatores de risco representam agressões de diferentes naturezas, associados com as causas da doença. Assim, o estudo dos fatores de risco para o câncer de boca é muito importante para um correto diagnóstico e prevenção.
Como a maioria dos tumores, o câncer bucal tem ainda alguns aspectos obscuros no seu desenvolvimento. Porém, existem evidências bem sólidas de que algumas formas de agressões ambientais, comportamentais e mesmo genéticas estão associadas com o seu desenvolvimento. Os dados epidemiológicos em diferentes populações têm destacado alguns fatores de risco como os mais associados à ocorrência do câncer de boca, sendo os principais deles:
- Fumo
- Álcool
- Sexo masculino
- Idade a partir de 35-40 anos
- Exposição crônica ao sol (câncer do lábio inferior)
- Irritações crônicas
- Histórico de câncer na família (genética)
Esses fatores podem atuar sozinhos ou em conjunto, neste último caso podendo aumentar ainda mais o risco da pessoa desenvolver a doença. Um exemplo disso é a associação dos hábitos de fumar e beber. O fumo e o álcool são considerados os maiores fatores de risco para o câncer bucal, principalmente pelo fato de serem hábitos encontrados em associação na maioria dos indivíduos apresentando efeitos carcinogênicos potencializados, já que existem evidências de que seu efeito não se somam, e sim se multiplicam. No que diz respeito ao sexo masculino, as estatísticas mostram que os homens apresentam maior número de casos de carcinoma espinocelular que as mulheres em uma relação que pode chegar até em 4:1. Neste contexto, ainda é necessário salientar que estas neoplasias ocorrem em indivíduos acima dos 35-40 anos. A exposição solar tem efeito direto sobre o aparecimento do câncer de lábio inferior de maneira muito semelhante com o que ocorre com a pele, ou seja, quanto maior e mais continuada a exposição, maiores os riscos. Os irritantes locais crônicos presentes principalmente na cavidade bucal das pessoas com hábitos precários de higiene, podem também exercer algum risco para o desenvolvimento do câncer bucal.
Sendo assim é possível afirmar-se que existe um "perfil" de risco aumentado para o desenvolvimento do câncer bucal: indivíduos adultos do sexo masculino, fumantes e bebedores independentemente do tipo de bebida alcoólica consumida.
DIAGNÓSTICO DO CÂNCER BUCAL
- ASPECTO CLÍNICO DO CÂNCER BUCAL (figuras 1 e 2):
As características clínicas do câncer bucal são muito variadas, abrangendo um amplo espectro de manifestações clínicas dependendo do estágio das lesões. Como o objetivo básico trata-se da identificação precoce do carcinoma espinocelular, o Cirurgião-dentista deve dar atenção às lesões que se mantém presentes por mais de 15 dias, tendo ou não recebido tratamento.
Em suas fases iniciais estas lesões são assintomáticas, mas o tempo de duração, a demora cicatricial, a dor e os hábitos comportamentais são exemplos de informações importantes a serem consideradas.
É possível afirmar que o câncer bucal se caracteriza por uma lesão ulcerada, de bordas endurecidas, com tamanho variável e crescimento progressivo. A forma ulcerada é bastante comum, sendo friável e sangrante ao toque. Lesões mais avançadas podem causar dor, restrição de movimentos mandibulares, odor fétido e infecções secundárias da lesão.
- LOCALIZAÇÃO:
Existem locais na cavidade bucal onde a ocorrência do câncer é mais freqüente. Assim, um exame minucioso destas localizações preferenciais é fundamental para diagnosticar com maior facilidade as lesões, principalmente aquelas em estágio inicial.
A língua é o local que mais freqüentemente é acometido pelo câncer. O lábio é o local com a segunda maior ocorrência do câncer bucal, principalmente o inferior que sofre maior exposição ao sol. Seguem em ordem decrescente de ocorrência o assoalho da boca, os rebordos alveolares, a mucosa jugal e o palato.
- ROTEIRO DE EXAME CLÍNICO:
O cirugião-dentista deve examinar todo o paciente em cada consulta como um possível portador de câncer bucal, já que não existe paciente imune ao câncer. Essa preocupação deve ser maior nos indivíduos cujo perfil de risco é aumentado. Sendo assim, o exame clínico deve envolver todas as estruturas anatômicas da cavidade bucal e anexos sob a responsabilidade do cirurgião-dentista, como se segue:
- EXAME EXTRA-BUCAL:
- Face
- Lábios
- Palpação de linfonodos para avaliar metástases
- EXAME INTRA-BUCAL:
- Mucosa dos lábios superior e inferior
- Mucosa jugal direita e esquerda
- Gengiva
- Dorso, bordas e base da língua
- Assoalho da boca
- Palato duro e mole
- Orofaringe
- CONDUTA FRENTE AO DIAGNÓSTICO DA LESÃO:
Na existência de suspeita clínica de carcinoma espinocelular, deve ser indicada a biópsia parcial. Nesse caso, deve-se atentar para que haja remoção de tecido tanto na porção afetada quanto daquela com aspecto normal ou sadio. O material obtido deve ser encaminhado para análise microscópica juntamente com uma ficha de biópsia que contenha os dados do paciente, do profissional e as informações clínicas da lesão.
LESÕES CANCERIZÁVEIS
As lesões cancerizáveis são alterações que indicam maior risco de transformação maligna em uma região. Sua presença pode ocasionalmente preceder o desenvolvimento do câncer, isto é, são lesões que podem se transformar em câncer. As lesões cancerizáveis que merecem maior destaque na boca são as leucoplasias, as eritroplasias e o líquen plano.

Leucoplasia é um termo clínico definido pela Organização Mundial da Saúde como uma lesão branca da mucosa bucal, não removível por raspagem e não associada a nenhuma outra condição patológica. São encontradas geralmente em homens acima de 40 anos, fumantes, localizadas na língua, mucosa jugal, palato duro e assoalho da boca (figura 3). Uma vez diagnosticada clinicamente, as leucoplasias devem ser biopsiadas parcial ou totalmente para definir-se o tipo de distúrbio de maturação epitelial presente em cada caso.
A eritroplasia, em contrapartida, é caracterizada por uma lesão predominantemente vermelha, de bordas bem definidas, não associada a fatores infecciosos, inflamatórios ou traumáticos. O hábito de fumar também é um dos principais causadores. A lesão deve, assim como nas leucoplasias, ser biopsiada para a definição dos distúrbios de maturação epitelial presentes. Na maioria das vezes, as eritroplasias já mostram sinais displásicos bastante severos ou mesmo carcinoma espinocelular.
A conduta clínica frente às lesões cancerizáveis de boca envolve necessariamente a realização da biópsia e a remoção dos fatores irritantes como álcool, fumo, exposição ao sol (para as lesões de lábio) e correção dos irritantes locais presentes em cada caso.
As lesões mais características de líquen plano são listras ou placas esbranquiçadas opacas em forma de rede ou trama que freqüentemente se localizam na mucosa jugal. O líquen plano pode apresentar-se em diferentes graus de erosão, muitas vezes causando dor, quando mistura regiões avermelhadas (figura 4). Questiona-se bastante o potencial de o líquen transformar-se em carcinoma na cavidade bucal. Mesmo assim, é aconselhável acompanhamento e biópsia, quando indicada.
LITERATURA PARA CONSULTA:
PARISE Jr., O. Câncer de boca. Aspectos básicos e terapêuticos. São Paulo. Editora Sarvier. 2000.
|
|
|
|
|
Copyright © 2006 Unilever do Brasil. Todos os direitos reservados. Disposições Legais
|