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A abordagem atual de lesões de cárie em dentes decíduos, principalmente as profundas em dentina, contempla a máxima preservação dos tecidos dentários envolvidos. A remoção parcial de tecido cariado (RPTC) objetiva manter a vitalidade pulpar, uma vez que uma camada de dentina cariada é deixada sobre a polpa naquelas situações em que sua completa remoção poderia resultar em exposição pulpar (FAIRBOURN, CHARBENEAU e LOESCHE, 1980).
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Esta técnica apresenta-se como uma das alternativas terapêuticas para o tratamento invasivo de lesões cariosas agudas profundas em dentina (próximas à polpa).
A comparação da técnica de RPTC com a de remoção de todo tecido cariado demonstram ser a primeira mais conservadora em dentes decíduos, uma vez que um considerável número de exposições pulpares é evitado quando da sua utilização (LEKSELL et al, 1996).
Um adequado selamento da cavidade através do uso de materiais adesivos, como a resina composta e o cimento de ionômero de vidro resinoso modificado é imperativo para o sucesso inicial do tratamento, garantindo que as bactérias remanescentes abaixo da restauração apresentem notável redução no seu crescimento, diminuição no número ou ainda, sua inviabilização, uma vez que as mesmas já não têm acesso ao substrato para sua metabolização. Desta forma, não há a progressão da lesão cariosa (KING, CRAWFORD e LINDAHL, 1965; FAIRBOURN, CHARBENEAU e LOESCHE, 1980; FITZGERALD e HEYS, 1991; RICKETTS, KIDD e BEIGHTON, 1995; BJORNDAL, LARSEN e THYLSTRUP, 1997; BJORNDAL e LARSEN, 2000; MALTZ et al, 2002; MASSARA, ALVES e BRANDÃO, 2002; PINTO et al, 2006), e a polpa é constantemente estimulada para formação de dentina terciária, fazendo com que de alguma forma o tecido pulpar seja gradativamente protegido de estímulos exógenos. Desta forma, além de uma já considerada maior preservação da estrutura dentária, a manutenção de tecido cariado na parede pulpar também irá contribuir para uma menor agressão ao complexo dentino-pulpar, desencadeando-se um mecanismo de defesa através da esclerose dentinária e da formação de dentina reparadora (KING, CRAWFORD e LINDAHL, 1965).
Acrescenta-se ainda o fato da dentina desmineralizada intencionalmente deixada abaixo das restaurações se tornar clinicamente escura e endurecida (KING, CRAWFORD e LINDAHL, 1965; MAGNUSSON e SUNDELL, 1977; FALSTER et al, 2002; MARCHI et al, 2006; PINTO et al, 2006; FRANZON et al, 2007; EIDELMAN, FINN e KOULOURIDES, 1965; FAIRBOURN, CHARBENEAU e LOESCHE, 1980; STRAFFON et al, 1991; BJORNDAL, LARSEN e THYLSTRUP, 1997; BJORNDAL e LARSEN, 2000; OLIVEIRA et al, 2006), além de poder ser observada a sua remineralização (MARCHI, 2005; FRANZON, 2007), através de testes de microdureza em dentes decíduos que esfoliaram após um tempo razoável de permanência fisiológica na cavidade bucal. Estes resultados foram alcançados nos casos em que se observou clinicamente critérios de sucesso, tais como ausência de dor, mobilidade não compatível com rizólise, edema, fistula, e radiograficamente, a manutenção da integridade da lâmina dura, e sem a presença de reabsorções pulpares e dentinárias patológicas.
Há evidências clínicas, ultraestruturais, químicas, microbiológicas (EIDELMAN, FINN e KOULOURIDES, 1965; KING, CRAWFORD e LINDAHL, 1965; APONTE, HARTSOOK e CROWLEY, 1966; MAGNUSSON e SUNDELL, 1977; FAIRBOURN, CHARBENEAU e LOESCHE, 1980; LEKSELL et al, 1996; BJORNDAL, LARSEN e THYLSTRUP, 1997; BJORNDAL e LARSEN, 2000; FALSTER et al, 2002; MALTZ et al, 2002; MASSARA, ALVES e BRANDÃO, 2002; AL-ZAYER et al, 2003; BRESSANI, 2003; VIJ et al, 2004; MARCHI et al, 2006; PINTO et al, 2006; FRANZON et al, 2007) e radiográficas (HANDELMAN et al, 1986; RIBEIRO et al, 1999; OLIVEIRA et al, 2006) de que é possível manter parte do tecido cariado sob as restaurações e alcançar resultados clínicos e radiográficos longitudinais satisfatórios, como os acima citados.
A reintervenção para remoção do tecido cariado remanescente nesses casos poderia resultar em indesejáveis exposições pulpares. Além disso, não há evidência científica suficiente para saber se é necessária a reabertura do dente e a remoção desta dentina cariada remanescente (RICKETTS et al, 2006). Portanto, mediante essa técnica, pode-se diminuir a ocorrência de procedimentos mais complexos como os capeamentos pulpares diretos, curetagem pulpar e pulpotomia (RANLY e GARCIA-GODOY, 2000), que por sua vez apresentam resultados menos satisfatórios quando comparados a RPTC (FITZGERALD e HEYS, 1991; STRAFFON et al, 1991; FAROOQ et al, 2000; VIJ et al, 2004).
Assim sendo, pelo fato do dente decíduo possuir um ciclo biológico definido na cavidade oral, pode-se considerar a abordagem da RPTC como definitiva (FAROOQ et al, 2000; FALSTER et al, 2002; MASSARA, ALVES e BRANDÃO, 2002; BRESSANI, 2003; MARCHI et al, 2006; PINTO et al, 2006; FRANZON et al, 2007). Isto implica em um ganho na relação profissional-paciente, uma vez que torna-se desnecessária a inclusão de mais um procedimento invasivo.
Autor: Dr. Fernando Borba de Araújo
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