Dr. Adair Busato
Prof. da Universidade Luterana do Brasil, em Canoas.


Os novos materiais adesivos e a estética, transformaram a Odontologia Restauradora num evento novo. A nova dimensão da Odontologia, onde se deve dar máxima atenção a prevenção; máxima atenção a preservação do remanescente e a execução de uma restauração mínima, redimensionam a intervenção. A mudança do modelo de atendimento, onde se privilegia o cuidado com a saúde e não com o tratamento completam as novas características da "nova Dentística".

Introdução:
O preparo cavitário sofreu significativas mudanças. O surgimento de novos materiais restauradores, as mudanças nos paradigmas de atenção à saúde e fundamentalmente o aprofundamento na etiologia da doença cárie contribuíram para isto.
Hoje, sabe-se que os dentes são susceptíveis à cárie, todavia, condições higiênicas podem livrar o dente do risco de desmineralizações.
A alta complexidade da odontologia associada ao enfoque curativo, ao caráter mercantilista, monopolista e descoordenado, tem levado a estabelecer um modelo de atendimento ineficaz e de baixa cobertura.
Quando os programas de promoção de saúde se tornam ineficientes, surge a doença. Neste caso, a lesão cárie, como forma manifesta do desequilíbrio entre a microflora bucal e o hospedeiro. Está claro que o tratamento restaurador não significa a eliminação da doença, entretanto, contribui para minimizar os fatores de retenção cíclicos da mesma. Neste caso, a conservação da estrutura dentária é fundamental.
Desde 1908, com o surgimento dos princípios restauradores, sugeridos por BLACK, mudanças tem acontecido e ainda é necessária a compreensão do contexto atual. ROULET e DEGRANGE (2000) propõem modificações drásticas quanto à conservação da estrutura dentária, entendendo como fundamental a permanência do substrato dentinário para garantir a longevidade de uma restauração. Embora a cavidade não exija formas definidas como no caso do amálgama, ela ainda não se constitui na solução da doença.
A promoção de saúde é a variável fundamental para favorecer, a cada dia, uma Dentística menos restauradora. Tentar entender como isso é possível, é a nova tarefa da Odontologia.

Até o início do século passado, os preparos cavitários eram realizados de forma empírica, sem conhecimentos mecânicos e biológicos. Em 1908, BLACK desenvolveu os princípios gerais do preparo cavitário, elaborando normas e regras para a execução do mesmo, baseado em conceitos mecânicos. Com o passar dos anos, muitos mudanças foram sugeridas , sempre objetivando a remoção de menor quantidade de estrutura dentária sadia.
Com o surgimento do ataque ácido, proposto por BUONOCORE, em 1955, e com a introdução dos materiais adesivos, muitos conceitos acabaram mudando. A cavidade não exigia mais formas definidas como no caso do amálgama, onde a retenção dependia da conformação do preparo, que muitas vezes levava a um desgaste excessivo de tecido sadio. Esta preocupação com o desgaste de tecido foi reforçada por estudos de MONDELLI et al. (1980) que demonstraram a importância na manutenção da crista marginal para melhorar a resistência à fratura do remanescente dentário.
Conhecimentos sobre a etiologia e a possibilidade de controlar a doença cárie de forma não invasiva, levaram a uma mudança nos conceitos de diagnóstico e tratamento da doença, modificando alguns procedimentos clínicos, na busca da promoção de saúde. O conceito de extensão preventiva preconizado por BLACK (1908) passou a ser obsoleto, definindo-se então que o tratamento da lesão não precisava ser necessariamente invasivo, principalmente quando o diagnóstico for realizado precocemente.
O contexto atual da Dentística se fundamenta nos princípios de máxima preservação, máxima prevenção e mínima restauração ou intervenção. Isto traz uma mudança radical no que concerne ao preparo cavitário.

1. Remoção de dentina cariada
A cárie dentária é uma doença infecciosa complexa, crônica e multifatorial, que determina a destruição localizada dos tecidos mineralizados. Ela é influenciada pelo fator tempo e é descrita como um processo dependente da interação entre microbiota específica, carboidratos e uma superfície dentária suscetível. A progressão da doença é lenta, resultante de um desequilíbrio entre o mineral do dente e o substratos da placa presentes neste dente, causando uma perda mineral. A cárie, normalmente, não é autolimitante, podendo causar a destruição total do elemento dentário se não for tratada, observando-se, assim, a importância do diagnóstico precoce dos sinais clínicos da doença. KRAMER et al. (1997); BUSATO et al.(1997).
Desde os tempos de MILLER (1890), sabe-as que a doença cárie resulta da atividade de microorganismos capazes de produzir ácidos. Entretanto, foi em 1924 que CLARKE, definiu a cárie como sendo resultante de um microorganismo streptococcus mutans. Esta teoria foi confirmada por KEYES (1960); FITZGERALD e KEYES (1965), que argumentaram a relação entre a cárie e os microorganismos, o hospedeiro e a dieta.
A destruição localizada dos tecidos duros é o sinal da doença, resultante do desequilíbrio dos fatores desencadeantes e se denomina de lesão. Inicialmente se apresenta como uma mancha branca, resultante da desmineralização que produz perda da translucidez e porosidade no esmalte. Este aspecto define a atividade da lesão. Esta etapa pode ser reversível, parcial ou totalmente. A lisura e o brilho superficial são sinais de regressão da lesão. BUSATO et al. (1997).
A lesão de cárie evolui de acordo a área anatômica dentária onde se localiza. Desta forma, vemos que na superfície oclusal se origina em zonas de difícil limpeza(fossas e sulcos), assim como em qualquer superfície onde se localizem estes acidentes anatômicos. A progressão da lesão até alcançar a dentina, dá uma conformação de um cone, com base maior na dentina, guiada pela direção dos prismas de esmalte. Na junção amelo-dentinária, a lesão propaga-se lateralmente, envolvendo grande número de túbulos dentinários e seguindo sua direção.
Nas lesões de superfícies livres (vestibular e lingual), sem irregularidades anatômicas, e de superfícies proximais (mesial e distal), a progressão se dá da superfície para as zonas estruturais mais profundas, sendo que a velocidade é determinada, especialmente, pela relação placa-dente (mecanismos de desmineralização e remineralização) e pela presença de defeitos e microporos na superfície do esmalte. No começo, a cárie causa muito pouco dano à superfície externa do esmalte, mas produz uma grande desmineralização na zona subsuperficial do mesmo. A destruição cariosa do esmalte, normalmente, toma a forma de um cone de base maior externa. Ao chegar ao limite amelo-dentinário, a lesão se extende lateralmente, chegando a tomar uma dimensão maior que a lesão do esmalte, podendo ficar socavada sob um tecido sadio. Na dentina, a progressão é rápida, seguindo os túbulos dentinários, dando a forma de um cone com base no limite amelo-dentinário e vértice na região pulpar.
Tanto nas fissuras como nas superfícies livres, a lesão pode ser dividida em quatro zonas: zona translúcida, zona escura, corpo da lesão e zona superficial, DARLING, 1956.

Embora existam duas linhas filosóficas para diagnosticar cárie: a norte-americana, método tátil ou palpações indiretas, que utiliza a sonda exploradora, JACKSON (1950) e a européia ou método visual, preconizada por MARTHALER (1966), estudos comparativos mostraram que o uso da sonda não facilita o diagnóstico da cárie, e até pode desencadear danos ao tecido hígido e desmineralizado, devendo ser descartada para tal finalidade, EKSTRAND, et al (1987); LUSSI (1991).

Para facilitar a inspeção visual em lesões proximais, pode ser usada a técnica da separação temporária, BUSATO et al (2002) podendo ser pelo método imediato, com afastadores mecânicos, ou pelo método mediato, utilizando-se tira de borracha ou separador ortodôntico, deixados por 24 horas, 3 dias ou uma semana. A separação temporária fornece um diagnóstico preciso quanto a presença ou não de cavidade, além de detectar lesões incipientes. Uso de microcâmera intrabucal pode facilitar o diagnóstico pelo aumento significativo da imagem, BUSATO et al (2002).
Em lesões em dentina, a inspeção visual depende da coloração e consistência. O tom amarelo-claro e o aspecto úmido identificam a lesão ativa. Já as lesões inativas são caracterizadas por uma coloração escura ou preta e firmeza à palpação indireta. É importante destacar que o exame tátil deverá ser realizado de forma suave, KRAMER et al (1997); BUSATO et al (2002).
O exame complementar radiográfico interproximal, favorece a identificação de lesões tanto em superfícies proximais como oclusais. No entanto, não é considerado eficaz para lesões de cárie oclusal incipientes, pois as alterações teciduais são evidenciadas quando já há um comprometimento de mais de 0,5mm em dentina, KRAMER et al. (1997). Em lesões fechadas de cíngulo, o uso de radiografias periapicais para detectar sua profundidade é limitado, devido a sobreposição de imagens, BUSATO, et al. 1997. Quando se tem suspeita de lesão em dentina, seja do tipo aberta ou oculta, o exame radiográfico é imprescindível para confirmar o diagnóstico, tanto em localização como em extensão, BUSATO, et al. (2002).
DORFMANN et al. (1943) identificou diferentes camadas histológicas numa lesão de cárie. A utilidade clínica deste descobrimento foi possível quando FUSAYAMA em 1979, introduziu um corante ou evidenciador de cárie capaz de identificar tais camadas. O autor não considerou confiável os critérios de dureza e coloração da dentina, sugerindo o uso de Fucsina Básica a 0,5% em Propileno Glicol ou corante Vermelho Ácido a 1% em Propileno Glicol para diferenciar as diferenças histológicas no tecido cariado.
Embora tenha sido discutido amplamente as vantagens do emprego de evidenciadores no diagnóstico de cárie, tem sido sugerido que o uso dos mesmos não assegura a total remoção de microorganismos, ) e assim como pode levar a um desgaste desnecessário de estrutura dental, devido a capilaridade da solução corante, principalmente na superfície pulpar, em cavidades profundas HENZ(1997) Torna-se necessário explicar que, em caso de restauração no mesmo dia, o uso de evidenciadores é o método mais confiável para diagnosticar tecido cariado. Por ele se unir às aminas liberadas do colágeno irreversivelmente desorganizado, nos permite identificar as áreas dentinárias reversivelmente desorganizadas. A presença do colágeno íntegro é imprescindível para garantir a adesão pelo método de hibridização, fundamentalmente, ou através da integração dentinária, NAKABAYASHI (1982); BUSATO, et al. (2002).
Um novo método de diagnóstico de cárie é o sistema de transiluminação com fibra óptica que utiliza o FOTI, equipamento construído para fornecer uma melhor visualização da superfície dentária. Porém, devido a seu alto custo, KRAMER, et al, (1997); BUSATO, et al (1997) sugerem que a utilização dos sistemas de luz dos aparelhos fotopolimerizadores é aceitável. Este sistema, do ponto de vista prático e biológico, pode superar como diagnóstico auxiliar, a radiografia, por não utilizar radiação ionizante. A transiluminação por fibra ótica dá o diagnóstico a partir das diferenças nos índices de transmissão de luz nos tecidos dentários, sendo que a cárie aparece como uma sombra escurecida, devido a maior difusão de luz.
A medição de resistência elétrica, é um outro método de diagnóstico, que se fundamenta no princípio de que o dente cariado possui menor resistência elétrica que um dente sadio. Apesar de ASHLEY et al. (1998) mostrar bons resultados no diagnóstico com este método, mais estudos precisam ser realizados.
Uma vez diagnosticada a lesão de cárie se remove o tecido cariado. Os conhecimentos sobre a doença cárie, assim como os novos materiais restauradores estimulam a preservação da estrutura dentária, necessitando-se de uma avaliação dos métodos de remoção de tecido cariado existentes.
Embora os instrumentos rotatórios, como brocas e pontas diamantadas, sejam os mais usados, existem alguns problemas que devem ser levados em consideração, como: o desconforto do paciente, necessidade de uma anestesia local, o aquecimento causado pelo corte da broca, que mesmo com o spray de água, pode causar algum dano à polpa e muitas vezes, a ocorrência de um sobrepreparo, com a remoção de dentina não infectada. As brocas podem, facilmente, abrir túbulos dentinários sadios na dentina mais profunda, e, juntamente com a estimulação dos processos odontoblásticos pela água, o que pode resultar em dor após o preparo. Na prática, normalmente usa-se brocas ou pontas diamantadas em alta-rotação para ter-se o acesso à cárie. A baixa-rotação e escavadores de dentina são usados para a remoção da cárie. O método utilizando-se escavadores de dentina parece ser o mais auto-limitante, pois permite uma maior sensibilidade táctil pelo operador.
A abrasão a ar foi originalmente desenvolvido por R.B.Black em 1945, que investigou uma alternativa para remoção do tecido dentário envolvendo o bombardeamento da superfície dentária com partículas em alta velocidade (partículas de óxido de alumínio), BLACK (1950). Este método de remoção de dentina cariada parece reduzir os problemas de aquecimento do dente, vibração e outros estímulos mecânicos, resultando em pouca dor para o paciente se comparado ao uso de brocas. O uso da tecnologia da abrasão a ar, juntamente com evidenciadores de cárie em lesões iniciais, favorece a mínima intervenção, reduz o surgimento de microfendas, melhorando a adaptação do material restaurador com a superfície dentária, reduzindo o risco de fratura.

Algumas desvantagens desta técnica são a perda de sensibilidade tátil durante o preparo, pois a ponta não toca a superfície do dente, podendo haver o risco de sobrepreparo ou remoção inadequada de dentina cariada, a dentina sadia e esmalte podem ser removidos, assim como o paciente e o profissional poderão inalar os tecido residual liberado, sendo necessário um bom método de sucção, uso do isolamento absoluto e profissional e auxiliares com máscaras de proteção.
O ultra-som é estudado desde 1950. É um mecanismo no qual a energia cinética das moléculas de água são transferidas para a superfície dentária através de uma ponta abrasiva. Quanto mais duro o tecido, mais fácil de cortar. Portanto, dentina cariada, que é um tecido amolecido, ficaria muito difícil de remover. A sugestão seria para a porção mais interna, na qual a dentina é mais endurecida.
A existência de fragmentos residuais de tecido cariado, após a remoção pelos diferentes métodos explicados, levou HORNING (1987) estimular o uso de Air Polishing. Segundo o autor, a hidrosolubilização de partículas de bicarbonato de sódio, com adição de fosfato tricálcio, aplicado sobre a superfície do dente utilizando ar pressurizado com jato de água, removeria tais resíduos.
O uso de Laser tem sido empregado como forma alternativa para a remoção do tecido cariado. Vários tipos de laser existem para cortar tecidos duros, entretanto sua eficácia dependerá de fatores como o comprimento de onda, energia de pulso, níveis de repetição e característica do tecido envolvido. O laser Er YAG poderia remover tecido cariado, juntamente com dentina e esmalte sadios, com mínimos efeitos térmicos nos tecidos adjacentes. Posteriormente, trabalhos mostraram que materiais como cimentos e compósitos também poderiam ser removidos com o laser, porém coroas de ouro e cerâmicas não. Restaurações de amálgama não deveriam ser removidas, devido a evaporação de mercúrio durante o processo. Trabalhos mostraram que a força de união da dentina preparada com laser é superior às dentinas preparadas mecanicamente.
O conforto durante a remoção do tecido é superior quando empregado laser. O uso de anestesia foi reduzido em 80% dos pacientes quando comparado o método tradicional ao laser.
Em 1998, ERICSON apresenta um novo método de remoção da dentina cariada, fundamentado no efeito proteolítico decorrente da associação de aminoácidos naturais (ácido glutâmico, leucina e lisina), hipoclorito de sódio 0,5% e eritrosina como corante, identificado como Sistema CarisolvTM . Ele é uma evolução tecnológica do Caridex ( National Patent Medical Products New Brunswich, NJ, USA), material empregado para remoção de tecido cariado, composto fundamentalmente por hipoclorito de sódio e que teve certa limitação clínica. Este sistema se apresenta em forma de gel o que favorece a sua aplicação e baixo nível de escoamento superficial.
A mistura das substâncias constituintes é colocada sobre a dentina cariada durante 60 segundos. Isto favorece o amolecimento do tecido assim como a delicada remoção. Os aminoácidos tem diferentes cargas e sofrem cloração interagindo com as fibras colágenas desorganizadas e o tecido necrosado, favorecendo a remoção da dentina cariada, ERICSON (1999). Hoje, temos duas variações em relação aquele: o Dent-Solv com a mesma composição e o Papa-cárie, a base de papaína, essência de mamão papaia, que desenvolvido pela pesquisdora paulista Sandra Kalil Bussadori, tem mostrado resultados altamente eficazes.

2. Forma de contorno
Segundo BLACK (1908), a forma de contorno do preparo cavitário deveria englobar todo o tecido cariado e as áreas suscetíveis à cárie, seguindo os princípios de remoção do esmalte sem suporte; localização das margens do preparo em áreas de relativa resistência à cárie e de fácil acabamento das margens, estabelecendo a extensão preventiva; localização subgengival das margens em pacientes jovens, à nível gengival em pacientes adultos, e acima do nível gengival em casos de recessão gengival; preservação das estruturas de reforço( cristas, pontes de esmalte); e as margens vestibular e lingual deveriam estar a 0,8 a 1,2 mm do dente vizinho.
As primeiras modificações de forma de contorno foram propostas por BRONNER em 1930. Para este autor, a área entre o ponto de contato e a crista marginal não é suscetível à cárie, e desta forma, não necessita de extensão para prevenção. MARKLEY, em 1951 sugeriu um istmo estreito e raso na secção oclusal, com paredes vestibular e lingual convergentes para oclusal; ângulos diedros bem definidos e retenções adicionais. GILMORE, em 1967, sugeriu o estreitamento da secção oclusal dando um istmo com ¼ da distância intercuspídea do dente, porém com ângulos internos arredondados. A caixa proximal seguiria as recomendações de BLACK, com paredes paralelas, porém, com a extensão vestibular e lingual das paredes limitadas a 0,5mm o dente vizinho.
Em 1968, STRICKLAND sustenta o princípio markleiano de que as paredes da caixa oclusal fossem convergentes para oclusal.
O preparo sugerido por RODDA, em 1972, possui um istmo estreito, confinado a ¼ da distância intercuspídea, com aproximadamente 1mm para os premolares e 1,5mm para os molares. Ele sugere também a confecção da curva reversa de Hollenbach, em forma de "S" para produzir um alargamento para a caixa proximal; ângulos diedros arredondados; as paredes vestibular e lingual da caixa oclusal paralelas entre si e perpendiculares à parede pulpar. As paredes da caixa proximal convergentes para oclusal, extendidas a 0,25 a 0,5mm em relação ao dente vizinho. A parede gengival determinada também a 0,25 a 0,5 mm do dente adjacente ou a nível da margem gengival livre em pacientes com poucas lesões cariosas.
Com o passar dos anos, através de novos conhecimentos sobre a etiologia da doença cárie, com o surgimento de novos materiais restauradores e de um paradigma de tratamento conservador, o modelo cirúrgico-restaurador tem dado lugar a um novo modelo, baseado na promoção de saúde, que dá importância para o diagnóstico precoce de lesões de cárie e para as características individuais de cada paciente.
Dois modelos restauradores têm coexistido desde o início do desenvolvimento dos materiais adesivos. O primeiro, baseado nos princípios de Black, e o segundo, mais recente, baseado nas características adesivas dos novos materiais.

3. Forma de conveniência
É a etapa do preparo cavitário que visa proporcionar um adequado acesso à cavidade, possibilitando uma boa instrumentação e inserção do material restaurador. Muitas vezes, o primeiro procedimento que precisamos fazer é a adequação do periodonto. Segundo CHIAPINOTO (1992), o sucesso a longo prazo da dentística está relacionado com a saúde dos tecidos periodontais circundantes, e, ao se realizar um trabalho restaurador, é preciso cuidar para este não ser um fator iatrogênico, tanto aos tecidos periodontais como ao sistema estomatogmático. Sempre que possível, as margens da restauração devem ser mantidas supragengivalmente, porém sabe-se que em dentística, a extensão da margem será determinada pela extensão da lesão. Para facilitar o acesso e a adaptação da restauração, podemos lançar mão de afastamentos mecânicos, químicos, mecânico-químicos, cirúrgicos e eletrocirúrgicos. Deve-se salientar que a promoção da saúde periodontal previamente ao tratamento restaurador é de suma importância, como remoção dos fatores de retenção de placa, instrução de higiene oral, extração de raízes residuais e eliminação ou controle de bolsas periodontais. As técnicas cirúrgicas preconizadas para facilitar o acesso a lesão podem ser: retração cirúrgica por gengivectomia, gengivoplastia, para cavidades de classes III, IV e V; retração cirúrgica por retalho de espessura parcial ou total, para cavidades de classeV; retração cirúrgica para cavidades de classe II, que são as cunhas proximais ou cunha distal; e o aumento de coroa clínica, BARATIERI (1992); BUSATO et al., (1996)
Outra etapa importante na forma de conveniência é o isolamento do campo operatório, podendo ser absoluto ou relativo. Segundo MONDELLI (1977), todos os materiais restauradores requerem campo isolado, seco e perfeitamente limpo para serem inseridos ou condensados nas cavidades. O isolamento absoluto diminui a contaminação do ambiente operatório por partículas aerosóis, além de facilitar a visão do campo operatório, proteger o paciente de resíduos ou materiais que poderiam cair na cavidade bucal e controlar a umidade, MARSHALL (1998); TATEL (2000).
Para a realização do isolamento absoluto são necessários materiais como o lençol de borracha, perfurador do dique de borracha, porta-dique, grampos e pinça porta-grampo. O isolamento relativo pode ser utilizado para restaurações provisórias ou em condições que não é possível a realização do isolamento absoluto. Normalmente, é realizado com o uso de rodetes de algodão, podendo-se utilizar ou não grampos especiais para reter o algodão.
O afastamento interdentário constitui-se também em uma forma de conveniência para o preparo cavitário, principalmente naqueles que serão realizados nas superfícies proximais. Este procedimento poderá ser executado mediata ou imediatamente. O uso de borrachas para afastamento e restaurações provisórias contribuem para a criação de espaços inter-proximais, que facilitam o acesso à lesão. Estas manobras são periodontalmente mais aceitas e menos agressivas para o paciente. As restaurações de amálgama sofreram várias modificações quanto a forma de conveniência desde a época de BLACK (1908). Para este autor, o acesso para a caixa proximal em uma cavidade classe II deveria ser, invariavelmente, realizado pela face oclusal, mesmo esta não estando envolvida pela lesão.
Técnicas conservativas surgiram progressivamente. Em 1973, ALMQUIST propõe o acesso à caixa proximal, através de um slot auto-retentivo, restrito ao terço ocluso-proximal. Embora envolvesse a crista marginal, este preparo tinha como finalidade preservar a maior quantidade de tecido sadio. CROCKETT, em 1975, descreveu uma técnica estritamente proximal, com acesso pela proximal em casos favoráveis, como por exemplo, ausência do dente vizinho. ROGGENKAMP, em 1982, sugere o acesso proximal com preservação da crista marginal. Para isto a abertura da cavidade deveria ser iniciada nas superfícies vestibular e lingual, no seus terços proximais.
Com o advento dos materiais adesivos, foi possível para HUNT e para KNIGHT, em 1984, descreverem a técnica da cavidade tipo túnel, na qual o acesso é feito por oclusal, sem envolvimento da crista marginal, em lesões estritamente proximais associadas a lesões oclusais incipientes. A limitação da técnica tipo túnel é a dificuldade de remover toda dentina cariada, a presença de raspas de dentina e a complexidade na inserção do material restaurador, PAPA (1993).
A extensão do preparo para toda cavidade oclusal, como forma de extensão preventiva deve ser evitado, pois sabe-se que a perda de estrutura dentária, em especial a crista marginal, diminui consideravelmente a resistência do dente à fratura, MONDELLI, et al. (1980).
As classificações de MOUNT e HUME (1997) e ROULET e DEGRANGE (2000), permitem que a cavidade seja definida com fins terapêuticos e não mais sustentada em princípios biomecânicos. A adesão é o fator fundamental na relação dente/material restaurador e a dentina passa a ser o substrato fundamental.
A forma de conveniência para restaurações adesivas está determinada pelo princípio de remoção do tecido cariado. Neste caso, torna-se indispensável que a trama de colágeno, irreversivelmente desorganizada, seja removida e uma estrutura histológicamente organizada e estável se prepare para receber o material de adesão, BUSATO et al. (2002). Todos os métodos descritos para remover o tecido cariado adquirem dobrada importância, se considerado o fato de que a interferência da dentina infectada contribuirá negativamente o sucesso da adesão.

4. Forma de resistência
É a característica dada à cavidade para que as estruturas remanescentes e a restauração sejam capazes de resistir às forças mastigatórias. De acordo com BLACK (1908), a cavidade deveria seguir os seguintes princípios: abertura vestíbulo-lingual não superior a 1/3 do volume da coroa; paredes circundantes paralelas entre si e perpendiculares a parede pulpar; paredes pulpar e gengival planas, paralelas entre si e perpendiculares ao longo eixo do dente; conservar cúspides, cristas marginais e ponte de esmalte; remover todo esmalte sem suporte; ângulos internos vivos com ângulo áxio-pulpar arredondado.

Resultados, parcialmente semelhantes, foram identificados por LARSON et al., (1981), onde a metodologia utilizada por estes autores sugeriu que as cúspides vestibulares e linguais assim como as cristas marginais formam um anel de resistência do esmalte. A conservação destas estruturas é imprescindível para favorecer este princípio do preparo cavitário.
Na resistência dos materiais adesivos torna-se importante entender o papel da hibridização, NAKABAYASHI (1982), que consiste na impregnação dos monômeros hidrofílicos para o interior da malha de colágeno, exposta por condicionamento ácido (microrretenções). Após polimerizados, formam um compósito de resina e fibras colágenas, chamado de camada híbrida, que possui alta força adesiva, num valor médio de 18 Mpa, porém pode variar de 15 Mpa a 30 Mpa. As microrretenções favorecem a resistência dentária e do material. A quelação superficial do cálcio, descrita por WILSON e KENT (1972), assim como a integração com a lama dentinária, WATANABE (1994), podem ser consideradas variáveis de resistência, entretanto dada a sua importância na retenção do material serão descritas quando discutido esse princípio.

5. Forma de retenção
É a forma dada à cavidade para torná-la capaz de reter a restauração e evitar seu deslocamento. Para BLACK em 1908, quando a profundidade da cavidade for igual ou maior que sua largura vestibulo-lingual, a cavidade será auto retentiva.
MARKLEY (1958), descreveu a técnica de restauração de amálgama com a utilização de pinos cimentados. Eram pinos de aço inoxidável, cimentados em orifícios na dentina, com diâmetro de 0,0025 a 0,05mm maiores que o diâmetro do pino. Os pinos que eram cimentados com fosfato de zinco, causavam irritação pulpar. Isto foi resolvido com o uso de um verniz cavitário no interior do orifício, porém esta medida, pode diminuir a retenção dos pinos. A contra-indicação de modificar os pinos após a cimentação, sugere que devem ser testados e encurvados antes. Os riscos de fratura dentária sugeridos por MARKELY (1958) hoje podem ser minimizados se utilizados materiais de cimentação adesivos, como por exemplo o ionômero de vidro, BUSATO et al. (2002).
Uma tentativa de minimizar este dano foi sugerida por GOING (1966) com a técnica de pinos auto-rosqueáveis. O pino é retido na dentina através de roscas, que se formam a medida que ele é inserido na dentina, sendo o diâmetro do orifício 0,038 a 0,1mm menor que o diâmetro do pino. A profundidade varia de 1,3 a 2,0 mm, dependendo do diâmetro do pino utilizado. Os pinos auto-rosqueáveis dão uma retenção 5 a 6 vezes maior que os cimentados e duas a três vezes maior que os retidos por fricção, entretanto continuam a produzir pressões laterais e apicais, com as conseqüentes linhas de rachaduras dentinárias.
Com o objetivo de eliminar as desvantagens e as complicações de técnica do uso de pinos, OUTHWAITE, em 1979, descreveu a técnica de canaletas contínuas realizadas em dentina, com uma broca tronco-cônica invertida. Em seu estudo, no qual comparou o valor retentivo das canaletas ao uso de quatro pinos auto-rosqueáveis, constatou-se que a retenção provocada pelas canaletas era semelhante àquela produzida pelos pinos. Algumas desvantagens da técnica é que ela é bastante sensível aos pequenos movimentos da matriz metálica durante a condensação do amálgama ou durante a remoção da matriz, podendo ocorrer o deslocamento da restauração. A contra-indicação é quando a canaleta precisa ser realizada muito próxima ao esmalte, deixando o esmalte e a canaleta sem suporte adequado. Em 1988, CABRERA propôs uma variação na técnica das canaletas curvas, com o uso de canaletas curvas interrompidas, seguindo os mesmos princípios propostos por OUTHWAITE, et al., (1979).
Em 1980, SHAVELL e SENG et al., descreveram a técnica de construção de orifícios na dentina, nos quais o amálgama seria condensado. O primeiro utilizava broca cilíndrica de ponta arredondado e o segundo, brocas tronco-cônica invertida. A essa técnica chamou-se de amalgapin. Os "amalgapins" fornecem retenção semelhante aos pinos, além de não provocar pressão interna e trincas na dentina, não necessitam de cobertura, podendo ser empregados em situações que não seriam possíveis com os pinos. Não apresentam custo adicional, podem ser empregados em dentes que possuem uma menor estrutura dentária e seu tempo de confecção é mais rápido. Sua desvantagem reside na remoção de tecido sadio para a confecção do pino. Atenção deverá ser prestada na hora de remoção da matriz.
VARGA, em 1986, descreveu a união do amálgama às paredes cavitárias com o uso de um material adesivo intermediário, introduzindo o amálgama adesivo. Embora tenha sido idealizada utilizando a resina Panávia EX, hoje, esta técnica pode ser realizada empregando materiais adesivos tais como ionômero de vidro, cimentos resinosos e adesivos dentinários, BUSATO et al., (2002). É importante destacar que as vantagens desta técnica residem na diminuição da infiltração marginal da restauração, aumento da resistência à fratura e diminuição da sensibilidade pós-operatória. É uma técnica rápida e conservativa e pode ser considerada o elo entre as restaurações de amálgama e as adesivas.
A forma de retenção para as restaurações adesivas pode ser dada através da quelação superficial do cálcio, da hibridização ou através da integração. Estas duas últimas só foram possíveis após os avanços adesivos estimulados a partir do descobrimento do condicionamento ácido por BUONOCORE (1955).
O objetivo do condicionamento ácido é de aumentar a adesão do material restaurador à estrutura dentária remanescente. No esmalte, cria irregularidades e aumenta a energia de superfície MONDELLI (1977); BUSATO et al., (1997) ao remover uma camada superficial que é pouco retentiva, expondo uma superfície mais reativa, que permite à resina, uma melhor capacidade de molhar essa superfície. Na dentina, produz a remoção da matriz inorgânica, expondo a malha de colágeno, área que servirá como nicho de retenção do material adesivo. O ataque ácido favorece a conservação da estrutura dentinária, assim como a qualidade do vedamento marginal e a interação dente/restauração, GARONE FILHO & GARONE NETO, (1976)
Em 1986 BARKMEIER et al., sugeriram o ataque ácido com ácido fosfórico a 37% por 15 segundos, sustentado posteriormente por GILPATRICK et al., (1991); (1994).
Os padrões obtidos através do condicionamento ácido em esmalte podem ser citados como: padrão tipo I , com dissolução da porção central dos prismas de esmalte; padrão tipo II, com a dissolução da porção periférica dos prismas de esmalte, mantendo seu centro intacto. O padrão tipo III é uma combinação dos padrões tipo I e II, afetando 60 a 70% da superfície do esmalte, SILVERSTONE et al. (1975). Para RETIEF (1973), há ainda o padrão tipo IV, que ocorre quando o ataque é feito sobre a camada aprismática.
No esmalte, pode ser confeccionado um bisel em toda a borda cavo-superficial da cavidade, executado com uma angulação de aproximadamente 45 graus em relação a superfície externa do dente. O objetivo é de aumentar a força de união entre o esmalte e as resinas, possibilitando a exposição de prismas de esmalte transversalmente, os quais, desta forma, fornecem um melhor padrão de condicionamento, possibilitar a exposição de uma camada de esmalte mais energética, promover um melhor selamento marginal e aumentar a área de para o ataque ácido. Para TORNEY (1978), o bisel possibilita a transição gradual do material restaurador para o dente, proporcionando um melhor efeito estético. Em esmalte sem apoio não se faz bisel, para evitar a fratura do mesmo, CESAR (1984), CAMPOS, 2003
O corte ou desgaste da estrutura dentária produzido por instrumentos rotatórios ou manuais forma resíduos que se depositam sobre as paredes de dentina, dando origem a lama dentinária. O termo "smear layer" foi introduzido por BOYDE et al, em 1963. BRÄNNSTRÖM (1984) dividiu a "smear layer" em duas camadas: a externa ("smear on") que é amorfa e repousa sobre a superfície dentinária e a interna("smear in"), formada por partículas menores, presentes também no interior dos túbulos. Com o desenvolvimento de sistemas adesivos dentinários, surgiram os "primers" com a intenção de modificar a superfície dentinária, tornando-a apta para receber os adesivos resinosos, PASHLEY et al., (1992), sendo normalmente constituídos por ácidos (ácido poliacrílico; ácido tânico; ácido bórico; EDTA e ácido malêico ), com comportamento hidrofílico, que promovem a união da dentina e do agente de união propriamente dito.
O condicionamento ácido em dentina é realizado com ácido fosfórico a 37%, por 15 segundos, causando uma remoção total da lama dentinária, fundamentalmente quando procuramos hibridizá-la, NAKABAYASHI (1982).
Se o objetivo é integrar a lama dentinária com o sistema adesivo, o profissional pode fazer uso dos sistemas "self-echting primers", que fazem um condicionamento parcial da lama dentinária, por possuírem ácidos fracos em sua composição, WATANABE (1994).
A conservação da matriz inorgânica é imprescindível se a forma de adesão está determinada pela quelação superficial do cálcio (mecanismo de adesão do cimento de ionômero de vidro), onde acontecem ligações químicas dos radicais carboxílicos do cimento ionomérico aos íons cálcio existentes na superfície cavitária. A reação de gelificação entre o pó e o líquido do ionômero de vidro é ácido-base, resultando em um sal hidratado, sendo que nos primeiros 5 minutos um gel de policarboxilato de cálcio é formado, iniciando a adesão ao dente. Nas 24 horas seguintes, um gel de policarboxilato de alumínio é formado, maturando a adesão.

6. Acabamento das paredes de esmalte
É a etapa que visa a remoção dos prismas de esmalte sem suporte, pelo alisamento das paredes ou pelo preparo do ângulo cavo-superficial, MONDELLI (1977), visando promover um melhor vedamento entre o material restaurador e a estrutura dentária. Para BLACK, 1908, todo o esmalte sem suporte deveria ser removido para evitar a fratura do remanescente dentário.
Em 1976, DENEHY e TORNEY, sugeriram o uso de resina composta para reforçar o esmalte sem suporte, utilizando o condicionamento com ácido fosfórico da região interna do esmalte, aspecto reforçado por MORIN et al., em 1984.
SECCO, em 1992, sugeriu o uso de ionômero de vidro como uma falsa dentina em restaurações de amálgama, devido as características do material, como adesão à estrutura dentária e propriedades físicas próximas da dentina.
Estes postulados foram comprovados por TURBINO (1993) e RODRIGUES FILHO (1994) principalmente quando o material de reforço foi a resina compota.
SECCO et al.,(1997), demonstraram que a redução da estrutura dental por um preparo classe II, diminuiu significativamente a resistência das cúspides, sendo que os materiais restauradores adesivos modificaram positivamente este padrão, principalmente se o dente for endodonticamente tratado, BUSATO (1999). A sustentação da estrutura dentária com uma falsa dentina, formada pelo material adesivo é imprescindível para a posterior restauração em amálgama.
No caso de restaurações adesivas, o esmalte sem suporte deve ser mantido, pois o espaço residual será preenchido pelo material restaurador. A regularização do esmalte pode favorecer uma melhor adaptação do material restaurador, aumentando o vadamento marginal, MONDELLI et al., (1990)
O uso de um bisel, de extensão variável de 0,5 mm a 3 mm, aumenta a força de união entre o esmalte e as resinas, possibilitando a exposição de prismas de esmalte transversalmente, os quais, desta forma, fornecem um melhor padrão de condicionamento, possibilitar a exposição de uma camada de esmalte mais energética, promover um melhor selamento marginal e aumentar a área de para o ataque ácido, TORNEY (1978); BUSATO (1997). Entretanto esta manobra, pode ser totalmente dispensável no critério de BARATIEIRI (1995), principalmente se a técnica restauradora se refere à colagem de fragmentos dentários.

7. Limpeza da cavidade
A limpeza da cavidade seria a remoção de partículas remanescentes do preparo cavitário, possibilitando a inserção do material restaurador sobre uma superfície limpa, MONDELLI (1977). O desgaste ou corte do esmalte e da dentina por instrumentos rotatórios ou manuais, deixa sobre a superfície da cavidade microfragmentos de diâmetros variáveis, de 2 a 50 m, que obstruem e selam parcialmente os túbulos dentinários e podem interferir negativamente na adaptação do material restaurador, favorecendo a infiltração marginal, RETIEF (1974); BRÄNNSTRÖM e NYBORG (1974); JOHNSON e BRANNSTROM (1976).
A significância disto, é extremamente controversa. PASHLEY, em 1984, descreveu que a vantagem de não remover a lama dentinária é que ela constitui um forrador cavitário que reduz a permeabilidade dentinária mais eficientemente que qualquer selante cavitário, fundamento utilizado por WATANABE (1994) para sugerir a integração do material restaurador com a lama dentinária. No entanto, a desvantagem de mantê-la, é que ela interfere na adesão de alguns materiais odontológicos com a dentina, se o princípio de adesão é a hibridização.
Para BLACK, em 1908, a limpeza deveria ser realizada somente com ar ou algodão seco, evitando qualquer tipo de líquido.
Segundo FRANCISCHONE (1984), ela constitui-se na remoção de detritos que não foram removidos durante o preparo cavitário, como raspas de dentina e esmalte, bactérias, pequenos fragmentos ou partículas abrasivas dos instrumentos rotatórios, óleos provenientes dos aparelhos, devendo ser realizada antes da colocação do material de proteção ou de restauração, sendo de fundamental importância para o sucesso do trabalho restaurador.
Para BRÄNNSTRÖM e JOHNSON (1974), o efeito irritante dos microorganismos que permanecem na lama dentinária só é eliminado por agentes de limpeza com ação bactericida, contestados por NAGEM FILHO (1995) ao sugerir que a penetração destes, nos túbulos dentinários, poderia agredir quimicamente à polpa.
Os agentes germicidas poderiam incluir a água oxigenada a 3%. O peróxido de hidrogênio a 3% ou 10 volumes, aplicado por cinco segundos, foi sugerido por MUNTZ (1943); GILMORE (1973), pela sua ação germicida e pela sua capacidade de remover microfragmentos da camada superficial externa, mantendo a "smear plug". Recomenda-se a neutralização da água oxigenada com soro fisiológico ou solução de hidróxido de cálcio, logo após a limpeza, pois ela provoca uma reação inflamatória na polpa sadia e não reduz uma inflamação pré-existente, LANGELAND (1968), MONDELLI (2001).
Outro agente germicida é o hipoclorito de sódio, que são soluções contendo compostos clorados. Usados alternadamente com a água oxigenada, reagem com esta e liberam oxigênio, que é um excelente agente de limpeza e clareador das estruturas dentárias. Dá-se preferência ao uso da solução de Milton( hipoclorito de sódio a 1,0% de cloro livre, estabilizada com cloreto de sódio. Também necessita ser neutralizado após a limpeza, GROSSMAN (1974); MONDELLI (2001).
As soluções fluoretadas são potencialmente bacteriostáticas. GROSS e GOLDBERG, em 1974, avaliaram a utilização do fluoreto de sódio a 1,23% em cavidades Classe V, restaurando-as posteriormente com amálgama de prata, obtendo uma redução de 50% de cáries recorrentes. Autores como SHANNON (1976); ELLINDSEN e ROLLA (1987) indicaram o uso da solução de flúor, sugerindo que seu uso aumentaria a resistência da dentina à carie, dado comprovado por SARTINI FILHO, em 1986. Recomenda-se o uso de uma solução aquosa de fluoreto de sódio a 1,23%, com pH 3,6, podendo-se usar também, opcionalmente, gel ou solução acidulado a 1,23%, com pH 4,0.
As soluções de clorexidina são substâncias que se apresentam carregadas positivamente, muito usadas na prevenção da placa dental, gengivites e estomatites. Em trabalho realizado por PERDIGÃO, DENEHY e SWIFT JR. (1994), se comprovou que o uso de clorexidine após o ataque ácido não interferiu na resistência adesiva ao cisalhamento da resina adesiva para esmalte e dentina. Mesmos resultados foram observados por MEIERS e KRESIN (1996), entretanto a clorexidine foi aplicada previamente ao condicionamento ácido, deixando em aberto a conclusão da importância do uso de substâncias de limpeza, quando a técnica restauradora exige o condicionamento ácido da estrutura dentária.
As substâncias detersivas, diminuem a tensão superficial dos detritos oleosos, aumentado sua capacidade de molhamento e facilitando sua remoção através de várias lavagnes, BERBERT et al., (1982). Segundo NAGEN FILHO (1989) são agentes de limpeza especialmente indicados para remoção de substâncias oleosas e sangue. Para Exemplos de substâncias detersivas são o Tergentol, Tergensol.
As substâncias alcalinizantes (à base de hidróxido de cálcio) são úteis para qualquer profundidade de preparo, pois além de limparem mecanicamente a cavidade, neutralizam a acidez da mesma através de sua alcalinidade. Seu uso foi preconizado por MJÖR em 1961; MONDELLI et al., (1979) e BERGENHOLTZ e REITZ (1980). Os autores recomendaram o uso de solução saturada de hidróxido de cálcio preparada pelo próprio clínico, com 10 ou 20 gramas do produto P.A. em 200 ml de água destilada. NAGEN FILHO (1987), elaborou uma solução aquosa de hidróxido de cálcio a 1%, porém devido aos estabilizantes à base de glicol presentes em sua fórmula, este produto tem potencial irritativo em cavidades profundas. O Departamento de Dentística da FBO-USP tem indicado, além do uso de água de hidróxido de cálcio, o uso de detergente combinado com hidróxido de cálcio numa mesma solução( 200 ml de detergente para 10 ou 20 gramas de hidróxido de cálcio). A limpeza deve ser realizada antes dos procedimentos de proteção pulpar ou restauração, MONDELLI et al., (2001).
Os agentes desmineralizantes são constituídos pelos ácidos. Os trabalhos de BUONOCORE, em 1955, guiaram a técnica, que pode ser realizada tanto em dentina quanto no esmalte. Os diferentes ácidos empregados nas diferentes técnicas postuladas tem levado a variadas conclusões. Entretanto fica claro a compreensão de que o ácido em contato com a superfície dentária estimula a remoção da matriz inorgânica e conjuntamente favorece a remoção dos resíduos sobre ela depositada.
Para BERRY et al., (1987) e PEREIRA et al., (1992) o uso dos ácidos poliacrílicos, tânico e bórico remove a smear on, oferecendo maior quantidade de ions cálcio e fosfato para o processo de adesão
Quando a restauração é adesiva, torna-se indispensável o uso de ácido fosfórico como agente de condicionamento no esmalte e na dentina. Ele promove uma completa limpeza da cavidade, removendo tanto a "smear on" como a "smear in".
O seu comportamento em relação a polpa tem sido discutido desde a década de 70. Em 1973, LEE et al., em trabalho realizado com o uso de microscopia eletrônica, verificaram que o ácido, mesmo permanecendo por cinco minutos, não penetrava profundamente, ocasionando pouco efeito sobre a superfície dentinária. Já para RETIEF, AUSTIN e FATTI, em 1974, o emprego de ácido fosfórico a 50%, resultou em severa resposta pulpar. Em 1979, FUSAYAMA et al., relataram o uso de condicionamento ácido total, in vivo, com o emprego de ácido fosfórico a 37%, condicionando o esmalte e removendo a "smear layer", para posteriormente aplicar o adesivo e restaurar com resina. Os resultados desta linha de pesquisa o levara a concluir em 1987, que a sensibilidade dentária após a restauração adesiva está relacionada com a formação de "gaps" que permanecem entre o material restaurador e a dentina, podendo abrigar toxinas, bactérias ou causar a movimentação de fluidos. Para evitar esta fenda, o autor sugeriu o uso de ácido fosfórico a 37%, ocasionando a abertura dos canalículos dentinários, possibilitando a penetração do adesivo.

A limpeza da cavidade nunca substituirá a proteção dentino-pulpar em cavidades muito profundas ou perante a exposição pulpar. Nestes casos, o uso de materiais a base de hidróxido de cálcio será a escolha, de acordo com as normas estabelecidas pelo Grupo Brasileiro de Professores de Dentística em 1997.

Novos princípios restauradores
Os novos princípios restauradores são:



As mudanças ocorridas nos princípios restauradores se devem fundamentalmente à três fatores:

Promoção de saúde
O termo cárie dentária foi, durante muitos anos, sinônimo de cavidade e seu tratamento consistia na remoção da peça dentária. No século XIX, entrou-se a "era restauradora", na qual o único tratamento possível era a remoção do tecido cariado na tentativa de impedir a progressão da lesão, ou seja, o tratamento da seqüela era considerado como tratamento da doença. O conhecimento científico sobre etiopatogenia da cárie era insuficiente para seu controle. A finalidade era aliviar a dor e evitar o desenvolvimento da lesão, o que possibilitou a interrupção da progressão da cárie, mas não a instalação da doença.
O fracasso dessa Odontologia restauradora na promoção de saúde dos indivíduos, aliado à novos conhecimentos sobre a etiologia e possibilidades de controle da doença levaram à modificações relativas ao diagnóstico e tratamento da doença cárie dentária. O processo de mudança começou a se materializar ainda na década de 60 com a revolução científica decorrente das pesquisas de PAUL KEYES, quando foi demonstrado que a cárie era uma doença bacteriana infecciosa e transmissível em modelos de animais roedores. A identificação do caráter infeccioso da cárie revolucionou a visão da Odontologia cirúrgico-restauradora mostrando a fragilidade de se fazer a avaliação da atividade e severidade dessa doença a partir apenas da análise das características anatômicas e morfológicas de suas lesões.
Em 1982, LOESCHE examinou quantitativamente e qualitativamente a microbiota das placas oclusais e proximais de pacientes com alta atividade cariogênica. Nesses casos, após o tratamento restaurador, havia uma redução expressiva das concentrações de Streptococus mutans, porém esse efeito era passageiro, persistindo a tendência de volta aos valores iniciais após poucos dias. O diagnóstico da doença cárie era restrito à identificação da presença ou não da lesão cavitada e seu tratamento baseado na confecção da restauração. Com caráter preventivo, os procedimentos restauradores foram associados à instrução sobre autocuidado bucal, aplicações tópicas de flúor e proibição do consumo de sacarose de maneira padronizada para todos os indivíduos.
Entretanto, para um tratamento adequado é de fundamental importância o conhecimento e análise das causas da doença para que seja determinado o risco ou atividade de cárie e assim melhor planejar as condutas a serem adotadas. Atualmente, o diagnóstico da doença cárie é baseado na identificação dos fatores etiológicos, determinantes e modificadores da doença e seu tratamento é individualizado, baseado na avaliação do caso e determinação da atividade de doença. A escolha do material restaurador, a necessidade de tratamento com flúor, o aconselhamento dietético e a delegação ou não de tarefas vai depender do diagnóstico da atividade de doença e da motivação do paciente em controlar a doença. O objetivo principal do tratamento de uma doença é promover e manter saúde. O papel da Dentística não está mais restrito ao restabelecimento da forma, função e estética. Seus principais objetivos são: prevenir novas lesões, paralisar as já existentes e evitar as recorrentes. Isso é promover saúde.
Os procedimentos biomecânicos necessários para aumentar a longevidade das restaurações, fundamentados no princípio de conservação de estrutura dental são indiscutivelmente primordiais no controle da doença. Entretanto, exercem funções auxiliares. O principal fator que determina a real solução para o problema da cárie dentária é inserir seu tratamento em uma proposta de Promoção de Saúde. Nesse sentido, o tratamento odontológico pode ser definido como um elo de união entre os procedimentos restauradores e os não invasivos, com o objetivo comum de promover saúde.

Preservação da estrutura dentária
O preparo cavitário tem sofrido muitas mudanças ao longo dos anos, refletindo sempre a constante preocupação no desenvolvimento de uma Odontologia mais preservativa. Por mais paradoxal que pareça hoje, mesmo o princípio de BLACK em que se recomendava localizar as margens do preparo em áreas de relativa resistência à cárie estabelecendo-se a extensão preventiva, refletia a preocupação em prevenir e em preservar estrutura dentária, o que equivocadamente foi executado durante muitos anos. Porém, o que ocorreu realmente foi que, pelo desconhecimento na época, de que a cárie fosse uma doença controlável, através da extensão preventiva removia-se tecido dental sadio para evitar que o mesmo fosse removido pela cárie. Na verdade, a broca substituía o microorganismo que talvez nem se colonizasse, ou seja, a filosofia era destruir para evitar que fosse destruído. Apesar do engano, a intenção era prevenir.
O tratamento da lesão cariosa proximal tinha seu acesso pela superfície oclusal, de forma que após os procedimentos de retenção, contorno e resistência o perímetro final da restauração era sempre bem maior que a lesão inicial, e os problemas decorrentes eram também em maior proporção. As tentativas em reduzir o tamanho cavitário através de diversas alternativas de acesso à lesão cariosa proposta por diversos autores demonstraram a grande preocupação de preservação, contribuindo ainda mais para as mudanças que ocorreram ao longo dos anos que aumentaram a longevidade e eficiência da restauração.
MONDELLI ,1980 e LARSON ,1981, demonstraram através de seus trabalhos a importância na manutenção das estruturas de reforço do dente em que os preparos de classe II com envolvimento da crista marginal apresentavam menor resistência à fratura, enfatizando a importância de sua manutenção.O surgimento de instrumentos rotatórios de menores diâmetros, o desenvolvimento do corante evidenciador de cárie, a introdução do jato abrasivo, do laser e mais recentemente do gel carisolv, para remoção da dentina cariada, permitiram ao cirurgião-dentista a realização de um tratamento mais conservador a fim de prevenir desgaste da estrutura dentária sadia e enfraquecimento do remanescente dentário.
Restaurações conservativas favorecem a retenção, proporcionam melhor estética e menor alteração no relacionamento intra e entre arcos ou distúrbios aos tecidos moles, e propiciam menor agressão à polpa. Esse significado clínico decorrente da conservação do remanescente dental e manutenção de sua vitalidade pulpar, despertou desde o início, a preocupação em estabelecer princípios cavitários mais conservadores o que levou ao desenvolvimento e constante aperfeiçoamento de materiais capazes de suprir à essas necessidades clínicas. Conseqüentemente, isso contribuiu para o estabelecimento do novo modelo restaurador.

Uso de materiais adesivos O desenvolvimento da Odontologia adesiva foi possível através da descoberta de técnicas e materiais restauradores que deram início às grandes revoluções na área da Dentística adesiva. O primeiro grande passo que deu início a essa revolução foi dado em 1955 por BUONOCORE com a proposta da técnica do condicionamento ácido. Aliado a isso, o surgimento em 1967 dos agentes de união e sua constante evolução, possibilitou o estabelecimento da união adesiva dente-restauração.
Em 1962, BOWEN desenvolveu a resina composta como material restaurador, revolucionando o campo da restauração de dentes anteriores e contribuindo para o desenvolvimento da Odontologia adesiva. Ao longo dos anos as resinas compostas vêm sofrendo alterações significativas no que tange às suas propriedades físicas e mecânicas com o intuito de contornar algumas de suas limitações e aumentar as possibilidades de suas indicações, de forma que hoje, indiscutivelmente, fazem parte dos materiais de escolha para restaurações em dentes posteriores dependendo da necessidade clínica do caso e dentro de critérios estabelecidos na seleção do material restaurador indicado.
Outra grande contribuição foi em 1972, com o surgimento do cimento de ionômero de vidro, idealizado por WILSON & KENT . A introdução deste material no meio odontológico trouxe novas perspectivas à profissão, pelo fato de apresentar vantagens como, dentre outras, o de ser biologicamente mais compatível com o órgão pulpar que os demais materiais com características adesivas, além do fato de liberar flúor para a estrutura dentária adjacente, ou seja, são materiais com características adesivas e de biocompatibilidade, contribuindo na filosofia de preservação e prevenção. A introdução de materiais e o desenvolvimento de técnicas adesivas possibilitaram a execução de procedimentos idealizados através da preocupação constante de preservar estrutura dentária. Os benefícios resultantes foram muitos: preparo cavitário mínimo, restrito basicamente à remoção da dentina cariada; retenção obtida apenas às custas da adesão do material restaurador às paredes cavitárias, sejam elas esmalte ou dentina, sem a necessidade de desgaste de tecido sadio através da confecção de retenções adicionais; reforço da estrutura dentária remanescente; estética; suporte de esmalte sem apoio de dentina, possibilitando sua manutenção, ou seja, os materiais restauradores adesivos permitiram a realização dos novos princípios restauradores.
Há uma nova versão para a Odontologia Restauradora. Como o amálgama é um material que não se adere à estrutura dentária remanescente, TURBINO; RODRIGUES FILHO e baseado no trabalho de MONDELLI, et al. , a visão interpretativa das falhas nas restaurações identificou como causa principal das fraturas coronárias a fragilidade do remanescente dental. As restaurações metálicas fundidas com abraçamento de cúspide, tinham a finalidade de produzir este efeito. A partir do condicionamento ácido e das resinas compostas, nova leitura passou a ser feita, especialmente no que se refere à forma de retenção e de resistência. O trabalho de DENEHY e TORNEY é um marco histórico na preservação do esmalte socavado. Abraçar as cúspides internamente ao invés de desgastar as vertentes externas, passou a ser preferencial. Ganha notoriedade a preservação da estrutura dentária.
Surge uma nova filosofia: máxima prevenção, máxima preservação, mínima intervenção. Neste campo, o amálgama passa a ser questionado pelo fato de ser um material que "exige preparo definido", ou seja, paredes e ângulos. Isto implica em remover tecido sadio. O ionômero de vidro e as resinas restauradoras são menos exigentes neste aspecto. O preparo cavitário consiste basicamente na remoção do tecido cariado. A forma da cavidade não é crucial, ainda que MONDELLI, recomende preparos para resinas em forma de "gota". Isto é importante, porém não indispensável.

A odontologia adesiva com mínimos procedimentos preparatórios a uma restauração, pode também ser um recurso na recuperação na forma anatômica, na mudança de forma, na reorganização do sorriso, figuras 1,2,3,4 e 5.
 

A substituição de próteses unitárias antigas por coroas diretas, figuras 6,7,8 e 9 e ainda no complemento, quer seja durante, figuras 10 e 11 ou após o tratamento ortodôntico figuras 12,13,14 e 15: em dentes posteriores os sistemas adesivos tornam viável a recuperação de remanescentes fragilizados, de forma a evitar a necessidade de tratamento indireto mais invasivo e mais dispendioso financeiramente, figuras 16,17,18,19,20,21, 22 e 23.









Nova abordagem para a dentina cariada:

A remoção mínima:
Desde o surgimento da Odontologia, e especialmente a partir de BLACK,1908, o tratamento para a cárie dental instalada era o procedimento restaurador. Paralelo a esta filosofia, também o modelo contemplava a extração dentária, inclusive como forma de tratamento definitivo. A Dentística foi criada como forma de tratamento, tanto é que se chamou durante muitos anos "Restauradora", pois se achava que a ela não cabia fazer prevenção. Em função dos materiais restauradores disponíveis e de técnicas, as cavidades eram construídas de forma ampla e defendia-se a remoção de áreas de risco, como sulcos e fóssulas, pois ali, se acreditava, eram as áreas de maior risco pela dificuldade de remoção de restos alimentares, o que mais tarde iria se transformar em placa bacteriana. Os princípios gerais do preparo de cavidades e a classificação de cavidades contemplavam o tratamento, portanto a conseqüência e a nomenclatura sempre abordavam a cavidade. A extensão preventiva se originou da necessidade de se tentar evitar "recidiva" e o sacrifício de tecido dentário sadio se justificava por isso. Na década de sessenta, KEYS, desenvolveu experiências de observação de como a doença cárie se instalava, e como se desenvolvia. Concluiu que para haver desmineralização é necessário que vários fatores se associem, sendo os principais: a presença de um hospedeiro( no caso o dente); uma flora microbiana intensa( fundamentalmente streptoccocus mutans) e um substrato cariogênico ( ingestão não controlada de acúcares.). Esta nova leitura, criou novas perspectivas na Odontologia e também na Dentística, com novos desenhos cavitários, e a visão que agora a doença poderia ser evitada, caso fossem removidos os fatores predisponentes.
Na década de 80, THILSTRUP & FEJERSKOV, observaram que mesmo sendo portador de fatores determinantes, nem todos os pacientes apresentavam comportamento igual, ou seja, em alguns a cárie não se desenvolvia. Acresceram ao diagrama de KEYS o fator tempo, pois a formação da placa e a capacidade de desmineralização demoram algum tempo para ocorrer.A idéia de que a lesão cariosa pode ser interrompida, que nem todas as lesões precisam ser tratadas, passou a ser melhor evidenciada. A discussão sobre a extensão preventiva surge como questionamento para a remoção de dentina sadia, e o amálgama até então líder de indicações, fruto de sua excelente performance clínica, começa a ser questionando em função da necessidade de "preparo cavitário" nunca mínimo, e sempre maior do que realmente poderia ser. Surgem a resinas compostas e , as quais ladeadas pela técnica do condicionamento ácido, por BUONOCORE, em 1955, e acrescidas dos agentes de união, criam um novo modelo cavitário; mais econômico e por isso mesmo valorizando a estrutura dentária remanescente. A Dentística Restauradora começa a mudar. O ionômero de vidro, e seu potencial de doação de flúor, vai se somar a resina composta, não só em termos de restauração, mas especialmente na promoção e adequação do meio bucal. O movimento pela motivação e educação do paciente sobrepuja o conceito restaurador, e admite-se que a Dentística pode fazer também procedimentos preventivos. Novos materiais, novas sugestões de preparos de cavidade, mas também novos conceitos sobre o controle da placa e por conseguinte a possibilidade de evitar o aparecimento das lesões cariosas passam a ser temática de trabalhos de pesquisa, e os anos 90 chegam com uma nova leitura da realidade, onde até mesmo a remoção do tecido cariado, indispensável para o uso de amálgama que teria que ser fortemente condensado, já é admitido, MERTZ-FAHIRUST, l979. Os conceitos iniciais de DORFMANN et al, 1942, BESIC, 1943, sobre a remoção do tecido cariado; de FUSAYAMA & TERESHIMA, 1972, os quais apregoavam a remoção total do tecido cariado, foi dando a possibilidade de permanecerem em parte, desde que tratados com medicação tópica que produzisse a remineralização da dentina amolecida. Surgiu o tratamento expectante.O tratamento expectante preserva a dentina amolecida e com a cobertura com hidróxido de cálcio, se dizia, produzia em 60 dias uma remineralização que permitiria fosse executado o preparo cavitários em riscos de expor a polpa. A técnica apresentou um percentual de sucesso magnífico. De tal monta que, com o surgimento de materiais adesivos, a idéia de transformar este procedimento temporário em definitivo passou a ser estuda e é hoje uma realidade nova. Desde o trabalho de MERTZ-FAHIRUST, 1979, FRENCKEN, 1992, MALTZ, 1993, OLIVEIRA, 1994, MASSARA, 1996, figura 24 e 25; 26 e 27. SOUZA PINTO, 2002, figuras 28,29,30,31,32,33,34 e 35. CORRALO, 2003, figuras,36,37,38,39,41 e 41 mostra que existem evidências de que a permanência de dentina amolecida, porem selada, independente do material, produz interrupção do curso da doença, passou a ser uma nova forma de tratamento, muito mais conservador, minimamente invasivo e com manutenção da resistência do remanescente dentário. Aliado a isto, as notórias evidências que a mudança de hábitos, a educação, a motivação familiar e social são fatores de prevenção, trouxe também para a Dentística, agora não mais necessariamente restauradora, um compromisso de responsabilidade pela prevenção e se doença já houver, pela adequação do meio. A Dentística tem hoje uma nova visão: máxima atitude em prevenção; máxima preservação e mínima restauração.





 













Nova classificação de lesões / cavidades:
MOUNT e HUME, em 1997, conceituaram este novo modelo. O preparo deixa de ter uma forma de contorno pré-definida, e está resumido à remoção do tecido cariado. Os autores classificam, então, as cavidades de acordo com a localização e o tamanho. Estes princípios foram enriquecidos por ROULET e DEGRANGE (2000), quem incluíram mais um estágio da lesão, a qual não necessitaria de tratamento invasivo, criando assim uma classificação conhecida como "Sites/Stages" (Si/Sta), com algumas semelhanças à de Black quando descreve a localização da lesão, porém diferente ao descrever os estágios da evolução da lesão. Devido à importância desta classificação, achamos necessária mostrá-la no nosso trabalho. (Tabela 1).



São três os princípios que envolvem esta classificação: conservação da estrutura dentária, adesão e biointegração. A conservação da estrutura dentária dá importância para a preservação das estruturas de reforço, em especial, cristas marginais; para a preservação do esmalte socavado e também da dentina desmineralizada, como forma de proteção pulpar. A adesão traz benefícios mecânicos, com microrretenções, e biológicos, com um maior selamento marginal, protegendo, desta forma, o tecido pulpar. A biointegração significa biocompatibilidade, recuperação da função e da estética e prevenção de cáries secundárias, ROULET e DEGRANGE, 2000.

Cavidades: nomenclatura e classificação:

















Considerações finais:
O diagnóstico e o tratamento na Odontologia atual se fundamenta em evidências. Hoje, na Dentística, encontramos os princípios de máxima preservação, máxima prevenção e mínima restauração. São eles os que regem a biomecânica no preparo cavitário.
O diagnóstico precoce da lesão cárie garante tratamentos mais conservadores, inclusive a não intervenção restauradora. Entretanto, quando é necessário intervir, a remoção da dentina cariada associada à preservação da estrutura dentária é um binômio indispensável.
A manutenção dos tecidos dentários, e em especial das estruturas de suporte tais como cristas marginais e vertentes cuspídeas favorece a resistência da restauração e do preparo cavitário, que pode ser ainda melhorada se empregados métodos de adesão ao substrato dentinário, tais como hibridização, quelação superficial do cálcio e integração com a lama dentinária. Estes três fatores todavia irão contribuir decisivamente para retenção do material restaurador.
A forma de conveniência, não se limita ao acesso à lesão de cárie na estrutura dentária. Um periodonto saudável, assim como garantir o isolamento do campo operatório são variáveis a serem consideradas. Por este motivo, procedimentos que garantam esta situação deverão ser realizados, quando necessário, incluindo métodos cirúrgicos periodontais e técnicas de afastamento interdental. O preparo cavitário deverá ser definido pela remoção do tecido cariado, e quando localizado em superfícies proximais, deverão ser utilizados princípios biomecânicos conservadores.
O esmalte sem suporte dentinário não deverá ser removido e sim suportado por uma "falsa dentina" constituída por materiais restauradores adesivos. Hoje este princípio pode ser utilizado tanto para restaurações adesivas como para as que serão realizadas com amálgama.
A limpeza da cavidade é imprescindível e inicia o contexto de proteção do complexo dentino-pulpar em todo tipo de preparo, independentemente do método restaurador selecionado. Quando a forma de adesão escolhida for a hibridização, o condicionamento ácido funcionará como forma de limpeza, porém não contra-indica a associação a outros métodos de lavagem da cavidade.

NÃO SE TRATA CÁRIE COM MATERIAL RESTAURADOR. É PRECISO DAR PRIORIDADE PARA CUIDAR DA SAÚDE E NÃO DA DOENÇA. OS NOVOS PARADIGMAS DO TRATAMENTO RESTAURADOR ABRANGEM O TRATAMENTO TRADICIONAL, MINIMAMENTE INVASIVO E NÃO INVASIVO.
Hoje é possível tratar prevendo, prevenindo, preservando e restaurando minimamente.


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