O prêmio E.H. Hatton reconhece o potencial de pesquisadores em intensa atividade. Os dois projetos selecionados e vencedores foram apresentados em inglês, em forma de painel redigido. Confira a entrevista com as duas ganhadoras.

1. O que fez você se interessar pela odontologia?

Michelle - Esta é uma pergunta difícil de responder. Não tive um contato próximo com a profissão de cirurgião dentista antes de optar por ela. Assim como acontece com todos os adolescentes chegou a época do vestibular e eu precisava decidir por uma profissão. Acredito que tenha escolhido Odontologia por ser uma profissão que na época estava em destaque, sendo muito procurada e também por pensar que seria tranqüilo conciliar a família e a profissão sendo autônoma. Entrei para a Odontologia sem saber o que a profissão me reservava. Da mesma forma não tinha ideologia alguma relacionada ao meu futuro profissional. A Odontologia aconteceu em minha vida; abracei-a com muita vontade e hoje sou apaixonada por ela.

Marta - A possibilidade de se contribuir para a melhoria ou cura da saúde de uma pessoa é algo que faz com que a nossa vida tenha mais sentido.

2. Em sua opinião, qual a maior dificuldade da profissão?

Michelle - Poderia falar aqui da dificuldade do profissional formado estabelecer-se num mercado competitivo e dos altos custo de manutenção de um consultório odontológico que é uma realidade e faz muitos desistirem da profissão. Mas gostaria de salientar que na minha opinião uma das maiores dificuldades que a profissão enfrenta atualmente é a do compromisso com a saúde como um todo. O Brasil possui um dos maiores números de escolas de Odontologia e de profissionais formados, mas continua tendo números alarmantes de saúde bucal. Precisamos reverter estes números, mas para isto é necessária uma mudança no perfil do profissional que está sendo formado.

Marta - Atualmente, acredito que seja o grande número de profissionais que entram no mercado trabalho a cada ano, exigindo cada vez mais que os cirurgiões-dentistas busquem se aprimorar para se destacarem.

3. Quais as áreas que você considera mais promissoras?

Michelle - As especialidades odontológicas, como um todo, jamais deixarão de ser promissoras, ainda mais em um país tão carente no que diz respeito à saúde bucal, mas acredito piamente que uma das áreas que merece muito a nossa atenção no futuro e que tende a crescer e se destacar serão as áreas relacionadas com a Saúde Pública e também a Bioengenharia. O cuidado com a educação e prevenção está crescendo cada vez mais. Recentemente tive a oportunidade de presenciar um curso do Prof. Leandro Hilgert e do Prof. Sylvio Monteiro Júnior, ambos da UFSC, em que discutiam brilhantemente com acadêmicos da Odontologia o futuro da profissão, enfatizando que o profissional competente é aquele que previne a necessidade de uma restauração antes que esta se faça necessária. Acredito nisto também: educação e prevenção como um futuro promissor para a Odontologia. Outra área que está se destacando e que em breve creio que irá tornar-se uma realidade é a bioengenharia. Não vai levar muito tempo para que novas técnicas de manipulação de células e tecidos serão utilizadas e irão revolucionar a prática odontológica.

Marta - Desenvolvimento de novas drogas e bioateriais.

4. O que você espera da odontologia nos próximos anos?

Michelle - Espero, sinceramente, uma Odontologia mais social e mais engajada na educação e promoção da saúde bucal do que na atividade curativa. Espero também que a Odontologia aprimore-se cada vez mais na pesquisa básica. Atualmente percebe-se que as áreas da saúde estão entrando numa era mais biológica: estamos avançando rapidamente na biologia celular, na bioengenharia e na possibilidade de utilização da terapia gênica como uma alternativa mais biológica. Espero o dia em que utilizaremos substitutos biológicos para os tecidos perdidos ou que não se formaram em decorrência de alguma patologia.

Marta - Que ela se torne mais preventiva do que curativa do ponto de vista dentário, e passe a se ocupar mais com, por exemplo, casos de malformações, doenças congênitas e dor facial.

5. Para você, o que é preciso para ser um bom dentista?

Michelle - Primeiro de tudo é ter consciência de que a Odontologia é um ramo da área da saúde e como tal deve ser desempenhada: sempre buscando preservar e restabelecer a saúde do indivíduo como um todo. Segundo, gostar do que faz. Gostar daquilo que se faz é um grande passo para sermos bons naquilo que escolhemos. Ninguém nasce com o dom de ser um bom dentista. Todos podemos ser bons dentistas, desde de que estejamos dispostos e comprometidos com este propósito.

Marta - Antes de tudo, bom senso para se ponderar a relação custo-benefício em tudo que envolva o tratamento do paciente, sempre vendo-o de modo global e não estritamente dentário, e também a ética profissional.

6. Qual a característica essencial para seguir carreira no ramo odontológico?

Michelle - Falar em uma característica única e essencial é complicado, pois estaria unificando as diversas áreas de atuação da Odontologia. Cada uma delas requer uma característica ou habilidade especial e distinta. Não podemos nos esquecer que quando falamos de Odontologia não estamos falando apenas do profissional que se dedica diariamente ao seu consultório particular, mas estamos falando também dos profissionais que atuam junto a programas de saúde pública, gestão de serviços de saúde, pesquisadores, docentes, dentre outros, e cada um deles requer uma característica única. Nem todos têm habilidade para tudo. Cada um é particular em sua existência, assim como as diversas atuações da Odontologia.

Marta - Estar disposto a fazer tudo ao seu alcance para solucionar o problema do paciente, discutindo o caso com outros profissionais mais experientes e mesmo de outras áreas que não da odontologia.

7. O que cada profissional pode fazer para que todos possam ter tratamento dentário?

Michelle - Embora acredite sim que cada indivíduo dentro do seu contexto possa ser capaz de atuar e de mudar uma realidade restrita ao seu mundo, penso que somente isto seja pouco. A melhora do acesso ao tratamento dentário dar-se-á pela melhoria nos programas públicos de saúde. Entretanto mais do que é isso é necessário. Volto a enfatizar que precisamos de uma mudança no perfil do profissional, para que este esteja mais preparado em atuar não somente como gestor de programas públicos de saúde, mas como um profissional efetivamente atuante nestes programas. Um pequeno passo já está sendo dado, por meio do PSF (Programa Saúde da Familia) que consta com a atuação de um grupo multi-profissional, no qual está incluso um cirurgião dentista, mas precisamos muito mais para mudar nossa realidade.

Marta - Utilizar-se de tratamentos simples e eficazes, e investir em prevenção de doenças bucais e orientar pacientes para a redução da carga de estresse do dia-a-dia no aparelho estomatognático, melhorando o equilíbrio da musculatura facial.

8. Existe mesmo exclusão social pela falta de tratamento dentário?

Michelle - A falta de tratamento dentário reflete-se em condição precária de saúde bucal e esta condição levará o indivíduo à perda de elementos dentários que, por sua vez afeta a função e a estética. Vivemos atualmente num mundo que ressalta e incentiva a beleza, e quem não está nesta condição, seja ela por falta de estética dental ou por uns quilinhos a mais, se sente à margem dos ditos “padrões”. Dentro desta linha de raciocínio temos sim que a falta de tratamento gera a exclusão social, e ela não é mais tão sutil assim. Basta lembrar que recentemente convivemos com a divulgação na mídia de um concurso publico, que não vem ao caso citar, que trazia como exigência mínima que seus inscritos tivessem ao menos “20 dentes na boca”, como se a presença destes elementos dentários pudesse ser traduzido em saúde bucal.

Marta - Em regiões menos favorecidas economicamente há um menor acesso a tratamentos dentários mais complexos ou mesmo de acesso a água fluoretada e programas de prevenção odontológica. Tudo isso certamente contribui para a exclusão social desta população.

9. Qual seu maior objetivo profissional na carreira de dentista?

Michelle - Gostaria muito de aprofundar meus estudos na área da pesquisa odontológica básica, a bioengenharia e alternativas terapêuticas embasadas na terapia gênica. A pesquisa básica é essencial para que se possa compreender, em nível celular, o que acontece nas diversas patologias e para que se possa prever a melhor forma de abordagem. Além do que se pode, através de recursos de bioengenharia, criar alternativas biológicas de substituição aos tecidos dentários. Embora ainda esteja engatinhando, acredito que este seja um dos futuros da Odontologia: uma era biológica, embasada no conhecimento básico para gerar alternativas terapêuticas.

Marta - Poder contribuir no entendimento do mecanismo biológico de desenvolvimento do câncer de boca e, assim, estar mais um passo à frente na obtenção da cura e prevenção desta doença.










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