Mestre e Doutora em Odontopediatria pela Universidade de São Paulo, Dra. Márcia se especializou em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública e em Odontologia para Pacientes Especiais pelo Conselho Federal de Odontologia. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ela leciona as disciplinas de Odontopediatria e Odontologia para Pacientes Especiais e ainda coordena o Curso de Extensão Universitária “Bebê Clínica”.
Em entrevista exclusiva, Dra. Márcia chama atenção para algumas questões recorrentes no meio da odontologia como o receio que a maioria dos profissionais tem de entrar em contato com este universo. “Mas, com base em mais de 25 anos de experiência, afirmo: o trabalho com este público é extremamente gratificante”. Para falar de sua relação com pacientes especiais, ela cita uma frase de Albert Einstein: “A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original”.
Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista.
Como a maioria dos profissionais encara o atendimento a pacientes especiais?
O atendimento odontológico a pacientes especiais é um grande desafio para a maioria dos cirurgiões-dentistas. Além de não receberem nas faculdades uma capacitação necessária, os acadêmicos de odontologia não são estimulados a interagir com outras especialidades, o que é fundamental nestes casos. Pessoas com deficiências exigem uma abordagem interdisciplinar e o cirurgião-dentista precisa aprender a trocar experiências com outros profissionais. Esta troca implica numa mudança de atitude do profissional, que desafia sua formação tecnicista e elitista. Ele precisará saber, por exemplo, qual a melhor postura para uma pessoa paraplégica sentar-se na cadeira ou como abordar uma criança autista.
Como os colegas de odontologia lidam com este tipo de público?
Na prática diária, a grande maioria dos profissionais alega despreparo para cuidar de portadores de necessidades especiais. Na verdade, a maioria tem receio de entrar em contato com esse universo, onde os pacientes, de fato, exigem ainda mais cuidados do profissional. Mas, com base em mais de 25 anos de experiência, afirmo: o trabalho com este público é extremamente gratificante, ainda que ele exija mais tempo de consulta. Se algumas pessoas dizem que "pacientes especiais são aqueles que requerem alteração na rotina normal de tratamento", então devemos respeitar este conceito. Devemos alterar nossa rotina de tratamento e nunca, jamais, querer o contrário, que ele se adapte à nossa comodidade e ao nosso egoísmo. É possível respeitá-lo e tratá-lo como é e como merece ser tratado. Aí, então, nosso trabalho servirá para alguma coisa.
A relação dos profissionais com pessoas portadoras de necessidade especiais está mudando?
Sim, as pessoas com deficiências físicas ou mentais estão cada vez menos diferentes. Os tratamentos mais precoces, terapias modernas e novas propostas educacionais estão mudando o perfil dessas pessoas e estimulando sua participação social como cidadãos. Com isso, os preconceitos que sempre cercaram estas pessoas começaram a diminuir. Na área médica, os profissionais já começam a perceber a necessidade de conhecer melhor o paciente especial. Os cirurgiões-dentistas não estão excluídos desse contexto. Daqui para frente, também eles detectarão um aumento deste tipo de demanda.
Qual o tipo de abordagem mais adequada no tratamento de pacientes especiais?
Acreditamos que um diferencial importante seja a necessidade de uma abordagem mais alternativa, interativa e diferenciada. Existem vários problemas e distúrbios e cada um deles requer uma abordagem diferente. Por isso, os cursos de atualização e de especialização para o atendimento odontológico ao paciente com necessidades especiais enfocam os tipos de deficiência, noções de psicologia, interações medicamentosas, a abordagem clínica, dentre outros. O conhecimento prévio da condição do paciente - por meio de uma anamnese detalhada e de um bom relacionamento com o familiar ou cuidador - é essencial. Não há regras fixas. Muitas vezes, uma pessoa com deficiência física aparente pode ser mentalmente perfeita.
É utilizada alguma técnica especial?
A técnica de contenção fixa com faixas é muito utilizada, mas com autorização dos pais, como um tratamento alternativo. Na nossa clínica, a maioria é tratada no ambulatório sem contenção física. Novas técnicas poderão ser utilizadas a curto prazo na clínica odontológica como a homeopatia, a acupuntura e a hipnose. Esta última vem apresentando ótimos resultados como método de sedação.
A presença de familiares do paciente facilita o tratamento?
Sim, a relação que se estabelece entre o dentista, a família e o portador de necessidades especiais é um dos aspectos mais importantes do tratamento. O profissional que se propõe a atendê-los deve ter em mente que não está recebendo apenas um paciente, mas uma família cheia de medos, incertezas e expectativas. A identificação, a confiança e a cumplicidade entre todos são essenciais para o sucesso do trabalho. O atendimento à família especial faz parte de um processo de contínuo aprendizado, no qual há um novo desafio a ser superado a cada experiência que surge.
Existe alguma associação ou entidade que um profissional interessado no assunto deva procurar?
Existe a Abope - Associação Brasileira de Odontologia para Pacientes Especiais – (http://www.abope.com.br), uma entidade nacional que reúne renomados profissionais especializados na área. Neste ano, acontecerá o 19º Congresso Internacional do IADH (International Association for Disability and Oral Health) na cidade de Santos, em São Paulo. No evento, que será realizado no Mendes Convention Center entre os dias 29 e 31 de outubro, serão discutidos os novos rumos da especialidade em nível mundial.
Quem estiver interessado em se desenvolver no assunto também pode procurar os cursos de especialização, atualização ou extensão, regulamentados e reconhecidos pelo Conselho Federal de Odontologia, preferencialmente os vinculados a universidades.
Quais são os maiores benefícios que um profissional pode ter ao passar a ter contato com pacientes portadores de necessidades especiais?
Atendendo a este tipo de público, ele se desenvolve na tarefa de suportar o estranho, o exótico, e a conviver com ele. Se o profissional reconhece seus limites e se torna sensível a eles, poderá superar seus bloqueios e encontrar suficiente tranqüilidade para reagir e perpassá-los.
Quem trabalha com pacientes especiais sabe a diferença que eles fazem em nossas vidas. Eles nos colocam frente a frente às nossas limitações e nos impõem uma humildade que muitas vezes nos esquecemos de ter. Eles nos fazem, acima de tudo, refletir um pouco sobre os mistérios da vida. Diante deles, nos perguntamos por que temos "inteligência", no sentido lógico e eles, não. Por que temos o direito de ir e vir sozinhos e eles, não? Por que podemos ser independentes durante um longo período de nossas vidas e eles, não? Eles nos fazem até pensar em uma força maior que permite que nasçam crianças deste jeito. Uma força que possibilita a entrada deles em nossas vidas e que nos causam a ilusão, muitas vezes, de que podemos ajudá-los. Mal sabemos que, na verdade, são eles que nos ajudam.
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