Cimento poderá ser usado em tratamento de canal
Pesquisa inédita comprova que o cimento portland - largamente utilizado na construção civil - poderá revolucionar o tratamento endodôntico.

Ter acesso a tratamentos odontológicos, infelizmente, ainda é privilégio para uma boa parte da população brasileira. Prova disso é o resultado da Pesquisa Nacional por Amostragem de
Domicílios (PNAD), realizada em 2003 pelo IBGE. A análise indicou que 15,9% dos brasileiros, ou 27,9 milhões de pessoas, nunca consultaram um dentista.

Mudar este quadro não é fácil. Uma das maiores barreiras é o custo dos atendimentos odontológicos, nos quais são utilizados equipamentos caros e materiais importados. Mas uma pesquisa inédita na odontologia mundial - desenvolvida pela Universidade de São Paulo (USP) - pode contribuir para a ampliação do acesso aos consultórios dentários. Mais do que isso, ela pode ajudar até a baratear um dos serviços que mais pesam no bolso dos pacientes: o tratamento de canal.
O estudo, que está em andamento na Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), comprova que o cimento portland – muito utilizado na construção civil - poderia ser usado no tratamento endodôntico. Assim, este material substituiria o formocresol e o MTA, os dois principais produtos existentes no mercado para esta finalidade.

Apesar de ser uma alternativa, a adoção do uso do cimento portland deve ser vista como uma possibilidade de barateamento dos tratamentos endodônticos, não como uma certeza. Quem explica isso é a Dra. Ana Paula Camolese Fornetti, que está pesquisando a utilização do material. “Não se pode afirmar o quanto ele seria relevante no custo final, uma vez que um tratamento odontológico envolve outros custos.”

A pesquisa, que faz parte do projeto de Mestrado da Dra. Ana Paula, está sendo desenvolvida na disciplina de Odontopediatria do Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva da FOB. Em entrevista exclusiva ao site Odonto Close Up, ela ressaltou que o cimento portland não pode ser usado em qualquer procedimento e que, antes de ser aplicado em pulpotomias de dentes decíduos humanos, ele passa por algumas preparações como a esterilização.

“Como a pesquisa ainda não está concluída, não podemos divulgar a técnica empregada. Esta medida assegura que o cimento não seja indiscriminadamente utilizado pelos profissionais, uma vez que existem indicações precisas para sua aplicação”, afirmou.

Segundo a Dra, Ana Paula, o cimento portland proporciona condições favoráveis de reparo no local da amputação da polpa, preservando a vitalidade do dente. “Por se tratar de um material biocompatível, pode ser um possível substituto ao formocresol, que hoje é muito utilizado, apesar de não ser biológico, não promover reparo, não manter a vitalidade do dente e ainda apresentar potenciais tóxicos.”

Quanto a possíveis efeitos colaterais, a dentista disse não ter encontrado na literatura nem em suas avaliações qualquer tipo de problema que pudesse ser associado à utilização do cimento portland. Em relação ao formocresol, no entanto, ela disse que não há unanimidade na comunidade científica quanto a suas contra-indicações. “Já o MTA é biocompatível, porém tem um preço elevado”, afirmou.

A pesquisa sobre o uso do cimento portland em tratamentos endodônticos ainda está em andamento. “Estamos com avaliações clínicas e radiográficas em 24 meses do pós-operatório, com muito sucesso. Agora precisamos aguardar as esfoliações desses dentes para que possamos realizar as análises microscópicas e concluir a pesquisa”, declarou.

Sobre a origem do projeto, a Dra. Ana Paula conta que ele surgiu por meio do orientador, o Prof. Dr. Ruy César Camargo Abdo. Tudo começou com a percepção, bastante consistente na literatura, quanto às similaridades existentes entre o cimento portland e o MTA. “Há muitos trabalhos que empregaram com sucesso o cimento portland tanto em estudos laboratoriais quanto em estudos com animais. Baseando-se nessa literatura científica foi que conseguimos autorização para a realização do estudo.”

Questionada sobre possíveis barreiras impostas pelo mercado para a adoção da nova técnica em consultórios, a Dra. Ana Paula disse que, de fato, esta seria a fase mais difícil da pesquisa, mas acredita que após a realização das análises microscópicas e das publicações em revistas científicas, haveria maior consistência para assegurar a utilização do cimento portland.

“A partir do momento que os pesquisadores e os profissionais passarem a entender as facilidades e as vantagens do cimento e este material se tornar de interesse comum, as barreiras começarão a ser vencidas”, finalizou, otimista.




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