Tratar de pacientes que necessitam de acompanhamento diferenciado como os portadores de deficiência mental é uma tarefa muitas vezes desgastante. E mesmo com todos os cuidados que eles demandam, o número de profissionais que tem procurado especialização em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais cresce a cada dia. "Aos poucos vamos demonstrando para a comunidade odontológica e leiga a importância dessa especialidade, que contribui no contexto da saúde bucal, saúde básica, e também no desenvolvimento da imagem social das pessoas com necessidades especiais, que precisam emergir da desigualdade e do preconceito", pontua José Reynaldo Figueiredo, 47 anos, diretor científico da ABOPE - Associação Brasileira de Odontologia para Pacientes Especiais.

Especialista em Odontopediatria, José Reynaldo diz que começou a atender "especiais" quando percebeu que havia uma parcela significativa de crianças que ele não se atrevia a consultar: aquelas com necessidades especiais. "Sentia-me como um profissional pela metade. Se eu era especialista, eu não era um especialista tão completo, e isso me incomodava, foi então que comecei a pesquisar e me inteirar sobre esses pacientes". A partir daí, o doutor descobriu um mundo novo, com pouquíssimos profissionais, e muito deles despreparados. Resolveu, então, encarar o desafio.

A formação necessária para realizar esse tipo de atendimento, que exige, muitas vezes, compreensão, paciência e vontade, nem sempre vem da graduação. Na verdade, são raras as faculdades de Odontologia que se preocupam com a questão. Segundo o especialista, ainda caminha-se a passos lentos para que as direções de instituições universitárias percebam a importância da faculdade na inclusão social dos pacientes com necessidades especiais. Por isso, algumas entidades de classe promovem cursos de aperfeiçoamento, atualização e especialização que dão uma formação relativamente adequada.

Quem pretende seguir nessa empreitada deve procurar bons cursos. Ainda que não se tenha um padrão definido para o desenvolvimento da especialidade, cabe a quem se interessar buscar informações entre colegas e associações. "É um mercado ainda inexplorado, onde apenas 20% dos profissionais sentem-se confortáveis, demonstrando boa vontade em executar os serviços", comenta Reynaldo.

As dificuldades no atendimento dependem do grau de comprometimento que a deficiência ou a patologia acomete cada indivíduo. Pacientes com Síndrome de Down, autismo, paralisia cerebral, síndrômicos, com alterações sistêmicas ou comportamentais podem tanto requerer atendimento em centro cirúrgico como em consultório. "De qualquer forma, são muito mais fáceis de serem atendidos na cadeira do dentista do que se imagina", esclarece o doutor.

José Reynaldo não consegue contabilizar quantos casos o emocionaram nestes meus vinte anos de atendimento a pacientes especiais. Ele conta que se sensibiliza com seus pacientes em geral, mas que os "cuidadores" merecem mais que sua dedicação e respeito. O "cuidador" pode ser aquela mãe, aquele pai, avô, avó, tia, tio, irmão, vizinho, aquela pessoa que não esperava ter uma responsabilidade nesse sentido e, de uma hora para outra, se viu encarregado de uma vida, às vezes frágil, às vezes com necessidades que eles mesmos desconhecem e que não tem alternativa a não ser cuidar. E fazem isso muito bem sem que ninguém os tenha ensinado, apenas dedicando atenção, carinho, afeto e amor. "Em suma, tratar pacientes especiais é bom para o paciente, para a profissão e para o dentista", finaliza.




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