No imaginário popular o dentista é aquela pessoa que trabalha de branco atendendo dezenas de bocas na sua cadeira. As universidades de Odontologia também contribuem para essa idéia ao priorizar o tratamento clínico. "A nossa formação é voltada para a atuação do profissional dentro no consultório. Entramos na faculdade com a idéia de que vamos cuidar de dentes", afirma Antônio Carlos Vanzo Junior, 33 anos, especializado em Periondontia. Para ele, hoje é fácil enxergar que existem outras possibilidades de atuação para o odontologista, pois seu trabalho é dentro de uma indústria de produtos de aromas e fragrâncias: "É difícil o dentista aceitar
que pode trabalhar fora do consultório e fazer coisas que são competentes à sua formação. É quebrar vários paradigmas". Uma pesquisa do Conselho Federal de Odontologia constatou que só 2 % dos profissionais formados não trabalham dentro de uma clínica.

As opções de áreas em que o dentista pode atuar são inúmeras: marketing das indústrias farmacêuticas, administração de convênio odontológico, administração pública de saúde, redação de revistas especializadas, pesquisa e desenvolvimento de produtos de higiene oral, entre outras.

Antônio Carlos foi fazer odontologia, sua segunda faculdade, pois sonhava em ter uma clínica para atender seus pacientes. Mas quando terminou o curso recebeu uma proposta inusitada: "um convite para trabalhar na área de marketing profissional e em pesquisa e desenvolvimento de produtos orais. Eu aceitei e quebrei o paradigma", lembra o profissional que trabalha atualmente com pesquisa e desenvolvimento de produtos para o corpo: "o dentista é um profissional da saúde, não olha só para a boca", justifica.

A cirurgiã-dentista Ana Julia Perrotti-Garcia, 42 anos, encontrou um fatia do mercado inusitada onde é pioneira no Brasil: a tradução de livros de odontologia e medicina e curso de inglês para dentistas e médicos. Professora da língua inglesa desde antes da faculdade, Ana, depois que se formou, usava uma sala do seu consultório tanto para atender seus pacientes antes da consulta como para ensinar inglês para seus alunos, que eram, na maioria, dentistas. "Nessa época, de 84 a 87, ainda não existiam livros especializados em inglês odontológico", explica a cirurgiã-dentista, que depois de 87, começou a lecionar apenas para seus colegas de profissão: "Eles sabiam inglês, mas tinham dificuldade em entender os termos técnicos da área". Assim, ela aproveitou a demanda e montou com uma amiga um curso voltado para dentistas e mais tarde lançou o livro "Curso de Inglês Odontológico" pela Editora Santos. Aos poucos Ana, que também é especializada em cirurgia bucomaxilo, passou a trabalhar menos no consultório: "As cirurgias são longas e não dava pra atender 10 pessoas por dia. Então, nos meus horários livres comecei a fazer tradução de livros de odontologia". Ana traduziu mais de 20 livros da área de saúde depois e lançou mais quatro livros: "Pequeno Dicionário de Inglês Odontológico", "Grande Dicionário Inglês-Português Para Termos da Área de Saúde", "Vocabulário Para A Odontologia" e "Vocabulário Para A Ortodontia".

Em 2000, Ana Julia viveu um momento importante de escolha profissional, quando resolveu fazer faculdade de tradução: "Ou me dedicava integralmente ao trabalho de tradutora ou continuava apenas como cirurgião-dentista. Optei pelo o que eu mais gostava de fazer". Antônio Carlos, que chegou a exercer sua profissão dentro de um consultório durante a faculdade, abandonou a vontade de voltar a atender pacientes. "Me realizei trabalhando com isso. Toda a profissão é assim, você tem que se especializar". Já Ana Julia não descarta a possibilidade de voltar a trabalhar como cirurgiã: "Uma vez dentista, sempre dentista. Mas no momento não consigo imaginar, tenho projetos de mais cinco livros e estou fazendo pós-graduação em tradução na USP".

Ana Julia conhece poucos dentistas que atuam na sua área, mas acredita que a tendência seja crescer. Antônio Carlos aconselha os dentistas que queiram seguir um caminho diferente da tradicional atuação do odontologista desenvolverem habilidades que não foram dadas na faculdade: "Tem que ter vontade e disponibilidade para aprender outras coisas e se especializar".





Copyright © 2006 Unilever do Brasil. Todos os direitos reservados. Disposições Legais